Autora convidada: Sara Storrer.

Se você é frequentador do Collant, provavelmente já sabe que o universo gamer é majoritariamente  feminino. Ao menos no que diz respeito ao número de consumidores atuais. De acordo com uma pesquisa divulgada durante a Campus Party 2015, 52,6% do total de jogadores do Brasil* se identificam como mulheres. Esses 52% se repetem também ao elevar a pesquisa para nível internacional**.

Se somos maioria, por que então o titulo diz “microcomunidades”? Essa pergunta pode facilmente ser respondida por qualquer mulher que jogue videogames. A segregação de gênero tanto da indústria – quando opta por não incluir as mulheres como público alvo ou não garante representatividade -, quanto da própria comunidade, causa o isolamento das jogadoras. Você é mulher, logo não joga bem, logo não pode fazer parte do meu grupo. E, no fim, tudo aponta para você e diz: “jogue sozinha ou não jogue”.

Acontece que existe um movimento que sempre se opõe à exclusão: a resistência. E a resistência é um movimento lindo, porque é capaz de despertar nas pessoas um senso de identidade que as une e fortalece enquanto grupo. Isso acontece em todo lugar, todo o tempo, inclusive na comunidade gamer.

Enquanto se vê muito poucas mulheres em equipes de e-sports, por exemplo, existem milhares de outras que são filhas desse movimento de resistir e, quando se unem, formam comunidades só de mulheres. Não se engane, a resistência aqui vai além da luta por espaço que existe e é importantíssima. Essa resistência é principalmente sobre o exercício do direito básico e extremamente legítimo de poder ter acesso ao entretenimento negado em função do gênero.

Quantas coisas são negadas às mulheres? Você, mulher, o que já deixou de fazer por ser mulher?

Quando o feminismo usa o argumento da conquista (conquistar espaço, conquistar voz, conquistar direitos), o significado prático não deve ser compreendido como um posicionamento imperialista. Não é sobre se sobrepor a outros indivíduos para que se faça valer sua vontade. A conquista é sobre não ter mais suas necessidades e vontades controladas por outras pessoas.

Se temos mulheres se unindo pelo direito de jogar videogames em paz, conseguimos observar muito bem o quanto é possível melhorar a qualidade de vida de um grupo apenas permitindo que ele tenha tantos direitos quanto os outros. As microcomunidades de gamers mulheres tem essa função aparentemente fútil de tornar uma partida de multiplayer, por exemplo, possível, mas pense comigo: quantas liberdades são tiradas de uma pessoa quando se nega a ela uma futilidade? Liberdades demais.

As microcomunidades femininas garantem também tranquilidade. É seguro afirmar que quase toda mulher já se sentiu ameaçada, ofendida e/ou assediada pela comunidade gamer tradicional (também conhecida como: masculina). Estamos falando de uma comunidade que demonstra um atraso extremo no que se refere a direitos humanos: por onde você olha existe homofobia, racismo, xenofobia e, é claro, muita misoginia. Criar um ambiente seguro para as mulheres, melhor ainda se formado por mulheres, faz a diferença no momento da opção por este tipo de entretenimento e tem o poder de permitir a conquista do espaço gamer pelas mulheres. As estatísticas já afirmam que o espaço é nosso. Agora, unidas, nós vamos tomá-lo.

*https://www.pesquisagamebrasil.com.br/pesquisa-2015
**https://www.theguardian.com/commentisfree/2014/sep/18/52-percent-people-playing-games-women-industry-doesnt-know


Sara Storrer

Nerd feminista típica. Não aguenta três minutos de Resident Evil, mas acredita do fundo do coração que ajudaria a perpetuar a raça humana em caso de apocalipse zumbi.

%d blogueiros gostam disto: