bUma das coisas que eu sempre falo aqui no Collant é sobre a necessidade de representar mulheres de todos os tipos. Infelizmente, nós mulheres, não estamos imunes de sermos assassinas, ladras ou psicopatas. Essas representações são importantes não só porque ajudam a quebrar uma visão prejudicial de que mulheres são seres mágicos de pureza, mas porque abrem espaço para personagens que transitam entre a psicopatia e o anti-heroísmo e favorecem a cartela de maneiras com que mulheres são representadas na nossa cultura.

Os 8 Odiados perde a oportunidade de colocar Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) no panteão de vilãs bem construídas, já que erra no modo como a única personagem feminina central do filme é representada. O que inicia como uma personagem meio psicopata, com uma tendência à implicar com John “The Hagman” Ruth (Kurt Russell) e até tirar alguma satisfação da porrada que recebe dele, se torna sequências de Daisy apanhando constantemente e se revelando um clichê bizarro da donzela em perigo.

Eu sei que eu estou pisando em ovos falando que o Tarantino fez um filme ruim, ainda mais porque estou discutindo machismo dentro do filme dele, mas fique aqui mais um pouquinho.

Daisy deveria ser essa super vilã, rainha da malvadeza – o filme vende ela assim. Mas no final descobrimos que ela é a irmã do verdadeiro rei da malvadeza e que está sentada esperando ser resgatada pelo grupo de assassinos do irmão. Você só não vai dizer que ela é donzela em perigo porque Daisy não é donzela no sentido tradicional da palavra, que implicaria nela ser uma dádiva da pureza juvenil. Jody Domergue (Channing Tattum) não só arma todo um esquema para salvar a irmã da forca, como é também cinco vezes mais perigoso que ela, já que a recompensa sobre sua cabeça é de cinquenta mil dólares. Não é uma questão de quanto vale a recompensa de cada um – mas ao mesmo tempo é.

Daisy tem ZERO participação na sua libertação, ela senta e toca violão enquanto assiste o resto do grupo tentar salvá-la. John Ruth soltou as algemas e sem elas a personagem permaneceu durante um tempo considerável da história, tempo o suficiente para que ela tivesse, de alguma maneira, ao menos tentado auxiliar ou se livrar do seu próprio carrasco. É decepcionante ver uma personagem com tanto potencial ser desperdiçada dessa maneira. No final, pra mim, a sensação é que ela nem era um dos oito odiados, mas sim seu irmão. A cena final, em que ela morre agonizando enquanto Cris Mannix (Walton Goggins) e Major Marquis (Samuel L. Jackson) assistem, não dá a satisfação que deveria fornecer porque a personagem sendo enforcada não é a personagem que o filme (e os trailers) prometiam. Por passar o tempo todo ou apanhando ou sentada esperando algo acontecer, Daisy foi o elo mais fraco dentro os odiados, sucumbindo ao clichê da Smurffete.

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Olhando para as outras personagens femininas, que surgem em flashback, a visão machista que o filme propaga fica ainda mais evidente. São três personagens femininas representadas de forma pitoresca. Six-Horse Judy parece uma criança de dez anos saltitante e feliz. Mini, dona da estalagem parece ter um pouco mais de personalidade, mas Tarantino não perde a oportunidade de colocar uma personagem negra perguntando se ela tem a bunda grande. Gemma, funcionária da estalagem, também tem esse ar “boba alegre” de Judy. Todas as três são mortas pela gangue que vai salvar Daisy. Six-Horse Judy leva não um, mas vários tiros. Essa representação boba e estereotipada das personagem femininas, por mais que elas sejam de fato apenas personagens secundárias, soma ao problema com Daisy e sua falta de ação.

São oito odiados, e apenas um deles é uma mulher. Uma mulher que está esperando resgate, uma mulher que é sim uma vilã, mas que nem o título de um dos oito odiados ela parece manter. Se Tarantino pretendia quebrar o estigma de que mulheres não podem ser vilãs verdadeiramente más e perturbadas, ele deu um tiro no pé ao fazer de Daisy uma vilã que fica sentada esperando ser salva. Eu sei que ele fez Kill Bill e Jackie Brown, e eu gosto muito da Shosanna de Bastardos Inglórios. Mas Tarantino não está imune à falhar e deixar o machismo transparecer.

Além do uso incansável da palavra “Bitch”, que por si só carrega uma montanha de machismo, Tarantino insiste em se colocar a cima de qualquer discussão e a continuar a usar a palavra N****r.  Não foi a primeira e nem será a última vez que o uso excessivo dessa palavra em seus roteiros é criticado e, em determinado momento do filme, a impressão que fica é que Tarantino quer deixar bem evidente que ele não se importa com as críticas que a comunidade negra faz sobre o uso da palavra. Quando John Ruth encontra Cris Mannix na neve, Cris chama Major Marquis de N****r, a que John Ruth responde algo como “Você não sabe que eles não querem mais ser chamados assim?” Não consegui escutar esse diálogo e não considerá-lo um tipo de afronta aos seus críticos. A personalidade de Tarantino, o seu ego, e sua incapacidade de perceber o seu lugar de privilégio parecem ser os principais problemas dos seus filmes.

Como filme em si, acho que Os 8 Odiados passa longe de ser essa obra-prima que tanta gente parece considerar. Com diálogos que mais parecem monólogos, altamente explicativos e cansativos, cenas em que, mesmo para Tarantino, a violência parece sair de lugar nenhum e ir para nenhum outro – talvez uma tentativa de tirar humor do “gore” mas que, para mim, falha miseravelmente. A impressão que fica é que com quarenta minutos a menos de filme talvez Os 8 Odiados de fato entrasse no panteão de melhores filmes do Tarantino, porque talvez não fosse repetitivo, talvez não tivesse aquela voz over bizarra e desnecessária do próprio diretor, talvez não transparecesse machismo, talvez de fato acertasse na discussão de seja lá o que ele queria discutir com esse filme. A impressão que fica é que os 8 Odiados pode ser o oitavo filme de Tarantino, mas única coisa que vale a pena é a fotografia.

  • Pedro

    Concordo totalmente com a posição da escritora. Acho que o filme foi sim machista e também racista. Não vou dizer que “não gostei” do filme, mas me incomodei para caramba. O que salvou foi a trilha sonora e a fotografia.
    Porém, uma coisa que me incomodou, e isso de forma pessoal, pois sou gay, é que o personagem do Major leva um tiro nas bolas, pouco tempo depois de ele falar que fez um homem chupa-lo (independente se isso é verdade ou não), o que faz parecer que o roteirista (Tarantino), tem uma visão homofóbica das coisas. É meio assim: você não pode ter relações sexuais com um homem (sendo gay ou não), pois você vai merecer levar um tiro nas bolas por isso.

  • Camile

    aDorei ver,traduzidos num texto, todos os pensamentos que tive ao assistir o filme. Me incomodou enormemente o modo como Daisy é constantemente agredida e como essas agressões server como alívio cômico.Como se fosse muito engraçado ver uma mulher algemada servindo de saco de pancada,esperei muito mais ação da personagem, mais vilania…no fim pareceu que ao mesmo que ela era o motivo para todos estarem ali, ela era apenas figuração e um eventual objeto para descarregar a raiva. Uma pena!

  • Oi!

    Então, acho que você está completamente certa em sua leitura e concordo factualmente com tudo o que você escreveu. Mais ou menos.

    Concordo que o filme é machista sim. as violências cometidas contra daisy chocam. Ela já entra em cena com um olho roxo. ela tem os dentes quebrados na porrada. Todo mundo trata ela que nem lixo. É muito brutal. considerando tudo isso, acho que ela é ousada até demais. Ela é exatamente o que você disse: uma “donzela” esperando pra ser salva, mas é muito corajosa. Ela sabe que vai levar porrada e ainda assim provoca, cutuca, se afirma. As outras três moças são mostradas muito superficialmente. não conhecemos elas a fundo. Mas elas ocupam papéis submissos, serviçais. Dentro desse filme do Tarantas, é visivelmente uma tragédia ter nascido mulher. Assim como é uma tragédia ter nascido negro.

    Na real, não tem nenhum personagem que preste, que seja minimamente bom. São todos odiosos. Aliás, “odiosos” é uma tradução muito mais adequada do que “odiados”, pro título do filme.

    O que eu vi é o tarantino mostrar no filme a composição da sociedade americana em todo o esplendor de seu “mito fundador”: homens “bravos”, “donos” de seu destino, abrindo seu caminho à bala.

    o filme tem uma cena de estupro masculino. Não sabemos se ela aconteceu ou não, mas o modo como o Major Marquis conta a cena mostra uma crueldade desumana. E o filme é uma sucessão desse tipo de crueldade. Pessoas que exercem a força sobre outras pessoas. Pessoas que defecam em cima da dignidade de outras pessoas. Vale destacar que o mesmo Major Marquis, o negro que é protagonista, esperto, forte e sobrevivente, é castrado à bala. O truculento Hangman morre envenenado, sem briga, sem chance de mostrar sua “macheza”.

    Acho fascinante que para o Tarantino, essa é a cara da sociedade americana. Uma sociedade que se constrói em cima de individualismo, ódio, preconceito, armas e violência, onde a Justiça “legal” não é nada diferente da “Justiça de fronteira”.

    Outra questão que acho interessante é o uso da palavra com “n”. Como você citou, nos diálogos ele deixa claro que os negros se ofendem muito com essa palavra e acho que ele insiste no uso não para desafiar as pessoas da vida real, mas pra mostrar o quão odiosa é essa palavra, o quão odiosas são as pessoas que usam essa palavra.

    Acho que o Tarantino tem consciência sim de todos os seus privilégios e não tem a menor cerimônia de se valer deles. Ele é um homem branco, com reputação de bons filmes e constrói seus filmes do jeito que acha que tem que ser. Os negros sempre estão presentes nos filmes do tarantino e acho que essa presença, esses papéis, permitem levantar ótimas discussões a respeito do racismo dentro da sociedade americana. Podemos discutir se o Tarantino tem o direito de fazer esses discursos, por causa do seu lugar de fala e outras questões pertinentes. Ainda assim, a presença dos negros em seu filme mostra que a questão é importante pra ele.

    E o final do filme me parece sugerir para onde ele acha que os valores do “mito fundador” vão levar a sociedade norte-americana.

    OBviamente, eu gostei muito desse filme. Tá longe de ser um Mad Max, né, mas é bom sim. Pelo menos, eu acho. Mas, embora eu discorde, aceito os argumentos de quem não gostou nada do filme, que são, entre outras coisas, o didatismo, a autorreferência exagerada, os problemas de representação, a duração, etc.

    (Uma coisa que me incomodou muito no filme foi a matança promovida pela gangue do Domergue dentro da cabana. Tipo, aquelas pessoas sangraram pra valer em cima do assoalho de madeira e os moços conseguiram limpar todo o sangue sem deixar um vestígio, mas esqueceram uma balinha na fresta do assoalho. Pou, não, né? Eu implico com esse tipo de bobagem, mas acho que não colabora nada pra esse tipo de discussão… enfim).

    Eu gostaria de saber a sua opinião sobre a Shoshana de Bastardos Inglórios. Você acha que ela é uma personagem mais interessante? Você vê problemas na representação dela?

    Enfim, é isso. Obrigado.

    Abraços

    🙂

    • Rebeca Puig

      Ei Liber!
      Cara, eu realmente acho que se o Tarantino sabe do privilégio dele, ele opta por ignorar. Ele discute sim racismo dentro dos filmes dele, mas sempre de uma posição de superioridade, como se ele próprio estivesse além de qualquer erro. No texto tem um link pro histórico dele com a palavra “n”, mostrando inclusive momentos em que ele diz se sentir ofendido por questionarem o porque dele usar, e se colocando quase como white-savior. Uma coisa é você fazer um filme coo Django, outra coisa é você se auto-vangloriar por ter dado aos homens negros isso. Ele discute racismo sim, mas sempre se excluindo da discussão.
      Eu até posso ver da onde vem o seu argumento dos “fundadores”, mas dizer que o Tarantino discutiu o lugar da mulher na sociedade americana é dar mais crédito do que o filme tem. Daisy podia ser tudo isso que você falou, mas ele optou por fazê-la menor. Se a intenção era levantar essa questão, acho que ele falhou. Talvez com 40 minutos a menos de filme a intenção dele teria ficado mais evidente, melhor trabalhada e menos misógina.
      Acho o filme, no quesito roteiro e direção, bem fraco perto dos outros filmes dele. Nem achei esse filme em particular tão cheio de referências saltando a tela quanto Django, por exemplo, mas acho que o ego do Tarantino atrapalhou muito desde o tempo do filme até o roteiro. Parece que cada dialogo precisa durar 30 minutos e ser pura exposição, faltou a dinâmica que os outros filmes dele tem, razão pela qual os diálogos dele funcionam tão bem.
      A Shosanna, como eu disse, eu gosto. Faz tempo que assisti ao filme e teria que assistir novamente para de fato falar sobre a personagem, mas Bastardos Inglórios é, por causa do histórico da minha família com a segunda guerra, um filme muito satisfatório.

    • Eu sai do cinema com um nó na cabeça, sem saber direito se gostava ou não do filme, ele me parecia bom, mas tanta coisa me incomodava que eu não sabia dizer se a experiência foi positiva ou não.
      Hoje li uma critica super bem escrita que fala super bem do filme, agora li essa e em ambas a coisas que concordo e que discordo, logo continuo tão confuso quanto quando sai da sala do cinema rsrs
      Acho que vou assistir de novo assim que possível (provavelmente não no cinema de novo), com essas novas ideias em mente e tentar tirar minha conclusão.
      Quanto a personagem em si que está no centro da discussão desse post, eu gostei tanto da atriz, achei ela tão boa que talvez não tenha enxergado os problemas que a personagem carrega, tipo a quantidade de vezes que ela apanha me incomodou, mas essas outras coisas que vc apontou não haviam me passado em mente, pensando bem agora acho que ainda gosto dela, mas realmente poderia ter sido beeem melhor, só mudando o fato dela ser subordinada pra de repente ela ser a líder da gangue, e seus discípulos terem ido ao seu resgate, e mostrando em algum momento ela tomando a rédea da situação já seria mil vezes melhor, ainda que ela tivesse o fim que ela teve. Enfim, muita coisa da pra se discutir sobre esse filme, mas algo que acho que todos somos de comum acordo é o ego do Tarantino é o maior empecilho na carreira dele =p

  • Caio Borrillo

    Mais uma Smurfette, né? É estereótipo em cima de estereótipo. E mesmo que eu ache que o Tarantino tem talento, claro, inegável isso, todo mundo pode fazer cagada. E ele fez.

    Pergunta: o que é bounty? Seria recompensa? Acho que seria interessante deixar o termo em português. =)

    • Rebeca Puig

      Caio, MUITO OBRIGADA. Eu tava escrevendo o texto e não conseguia lembrar por nada o termo em português! hahaha Depois esqueci de procurar pra alterar! Vou fazer a mudança! Valeu! 🙂

  • Discordo totalmente do texto. Achei a personagem brilhante, talvez a melhor do filme, mesmo não sendo a fodona como a autora do texto tanto queria. Durante metade do filme eu pensei “no final ela vai foder todo mundo” e acho que muita gente também pensou assim. Talvez, pensamos assim porque o próprio Tarantino quis isso. E o que dizer da interpretação da Jennifer Jason Leigh? Já vi atuações bem menos competentes sendo premiadas. A personagem muitas vezes tinha que ficar em silêncio para não ser agredida, mas as expressões da atriz diziam tudo.

    Gosto muito deste blog, mas ler uma análise assim tão simplória sobre essa personagem e essa obra, me deixou um pouco decepcionado. Claro, cada um tem sua opinião, eu respeito profundamente isso, eu compreendo uma pessoa não gostar desse filme. Mas o que li foi além de opinião, foi uma análise cega e injusta de uma personagem muito bem escrita, interpretada por uma brilhante atriz e dirigida por um diretor genial.

    • Collant Sem Decote

      Oi Victor. Vou te responder o mesmo que escrevi no seu comentário do facebook.

      Que bom que você gosta do blog! 🙂 É uma pena que você tenha ficado tão decepcionado com a minha análise da personagem, mas o blog é sobre feminismo, cultura pop e opinião. Todos os nossos textos são reflexões que partem das nossas autoras, ou seja, possuem as opiniões delas também.

      Nesse texto eu apresentei os argumentos do porque acho a personagem problemática, explicando os tropes/clichês que são prejudiciais para a representação da personagem. Não foi uma análise cega, foi apenas uma análise diferente da que você fez da personagem. Mesmo Tarantino sendo um ótimo diretor, ele ainda sim está sujeito a pessoas não gostarem do seu trabalho.
      Sobre ser injusta, aí nós caímos na questão da opinião novamente – você com a sua, eu com a minha.

      Quanto à interpretação da Jennifer Jason Leigh, ela realmente é uma ótima atriz, e ela trabalha muito bem com o que lhe é dado, mas acho que poderia ter sido mais interessante se a personagem tivesse tido mais espaço para se desenvolver.

      🙂

  • Lorraine Duarte

    Acabei de ler a sua resposta ao comentário do outro leitor do blog, e sim, compreendo que um dos assuntos aqui tratados é o feminismo. Tudo bem, assunto pertinente nos dias atuais. Porém ao ler seus argumentos no texto acima fico com a ideia de que sua posição é a de que nós mulheres precisamos de cotas para termos a significância que merecemos. A personagem de Jennifer Jason Leigh foi extremamente bem construída de forma que nós podemos sentir ódio por ela assim como sentiríamos se o personagem fosse masculino. Essa habilidade da atriz associada à direção maestral de Tarantino resulta em uma grande obra de arte. Querer que a personagem tenha o mesmo valor de recompensa, aja totalmente por si só e tudo mais é querer podar os direitos do diretor acerca da sua própria obra, é querer controlar uma autonomia que não pertence a mais ninguém além do próprio Tarantino. E você tem o direito de não gostar de uma obra, claro, porém suas críticas não se apronfundam nem ao ponto de correlacionar com o recorte histórico relatado no filme. Na fase de expansão para o Oeste e o clássico Western você realmente acha que uma mulher teria o mesmo destaque de um homem? Existem filmes e filmes, cada um com seu foco. Seja Kill Bill com The Bride, Jackie Brown com a poderosa Jackie ou Death Proof com várias mulheres valentes, seja Django Unchained e The Hateful Eight que não focam em mulheres, cada um tem seu ponto principal. Nós não precisamos de cotas, simples assim.

    • Collant Sem Decote

      Oi Lorraine!

      O diretor tem todo o direito de fazer o que ele quiser no filme, eu não compreendo como uma crítica pós filme pronto poderia podar o diretor. Oo
      Quanto às cotas, eu realmente não sei da onde vc tirou essa afirmação. Se foi pq eu comentei que de 8 odiosos apenas um é mulher, eu reafirmo que gostaria de ter visto mais de uma mulher sim, talvez tivesse ajudado a passar a mensagem que o diretor queria de maneira mais evidente, e não vejo porque não poderíamos ter 2 ou 3 tipos de vilãs diferentes.

      O recorte histórico do filme existe, mas Tarantino não é exatamente conhecido por manter-se fiel à ele, vide Bastardos Inglórios e mesmo Django, dois filmes de revanche histórica. Mulheres eram sim oprimidas naquela epoca, muito mais do que somos hoje, mas isso não é justificativa para não desenvolver melhor a personagem.

      É ótimo que vc tenha gostado dela, nós só não dividimos a mesma opinião.

      🙂

      • Lorraine Duarte

        Sim, o filme já está pronto e você o criticou, ok, é claro. Porém a questão de se podar alguém que produz um material autoral é muito mais ampla que isso. Você tem todo o direito de defender a maneira como acha que as coisas devem ser feitas, porém eu defendo que o diretor faz o que ele quiser. Simples. Ai as pessoas – não especificamente apenas você – começam a querer um molde (ah, tem que ter mulher de tal jeito/ah não pode ficar falando “nigga”/ah não pode tanto sangue) e infelizmente muitos começam a comprá-lo – vide obras meia-boca que só existem para agradar o público, sem vida própria. Esse tipo de situação ao meu ver influencia muitas obras futuras. Tarantino talvez não caia nessa, claro. Reafirmo aqui que o diretor já fez muitos filmes nos quais as mulheres são o foco de poder, e neste caso simplesmente não é o enfoque. Quanto ao recorte histórico, sim, Tarantino não segue a risca totalmente a realidade, é uma marca dele. No entanto, ele não altera alguns pilares básicos que são necessários ao seu enredo, e entre eles está retratar uma parte da imagem feminina como ela era no contexto. Não é porque a personagem não era a líder da gangue que ela não recebeu empoderamento, pelo contrário, considerando novamente a época já foi um diferencial para a mulher retratada.

        • Collant Sem Decote

          Não acho que ela precisava ser a líder da gangue, apenas que ela não foi desenvolvida o suficiente para estar em pé de igualdade aos outros personagens centrais, nem para justificar a posição que o filme tenta colocá-la. Pra mim faltou construção de personagem e, o fato dela ser a única personagem feminina no grupo, só piora o modo como ela é representada.

          Acho que precisamos de personagens femininas de todos os tipos, vilãs, heroínas, anti-heroínas, personagens normais, complexos e mesmo unidimensionais – mas o modo como elas são apresentadas, e o mundo no qual estão inseridas importa. No caso de Daisy, acho que não foi o suficiente. De novo caímos para a sua e a minha opinião.

          Sobre a palavra “n” e sobre o que você considera “podar” diretores, olha. Homem nenhum vai deixar de fazer o que faz só porque uma mina falou, ele vai deixar de fazer o que faz pq se descontruiu e porque o mercado vai exigir dele. Se o mercado exige de um diretor que ele inclua mais personagens femininas, que ele se preocupe com o racismo da palavra “n”, que ele inclua mais personagens que não sejam brancos e o diretor se recusa a fazer isso – o errado é ele. Pq não só ele está ignorando a demanda do mercado e do seu público em potencial, como está se negando a acompanhar o movimento de mudança natural e inclusivo pelo qual estamos passando hoje. Ou seja, vai ficar ultrapassado.

  • Leonardo Ramos

    Interessantes as questões que você levantou, Rebeca. Eu também saí do cinema incomodado com o tratamento que o Tarantino dá à Daisy, você me ajudou a clarear mais o porquê desse incômodo.

    Eu gostei muito do filme, que mostra um Tarantino mais maduro e menos preocupado com como a crítica vai analisar seu filme – mais dedicado à arte que a entregar um produto pro mercado. Acho os diálogos muito bons, acho o enredo muito massa e, quando eu esperava um tipo de reviravolta, ele veio com outro, o que me surpreendeu…

    Mas eu fiquei pensando também, como homem machista que sou, no seguinte: eu, do início ao fim, senti “dó” da Daisy – tanto pelo fato de ela parecer mentalmente perturbada quanto por ela apanhar o tempo todo (nisso eu concordo com você que ela, de uma forma bizarra, reproduzia o estereótipo da donzela a ser salva) -, o que me fez desejar um final melhor pra ela. O final me chocou bastante, e não me deu aquela sensação da catarse que todos os filmes tarantinescos me davam. Talvez seja por conta dessa donzela que ainda persiste na personagem, como você colocou.

    Só discordo que ela seja tão passiva. Me parece que ela está, durante o filme, muito segura de si – encarei os sinais de perturbação mental como uma estratégia dela para agredir de volta seu carrasco. Além disso, durante o tempo em que ela ficou livre do John Ruth, ela consegue entrever um momento de agir em prol da própria liberdade, mesmo sabendo que havia outras pessoas ali para salvá-la. E ela o faz, até que a gente tem outra reviravolta… rs… coisas de Tarantino.

    Resumo da história: os outros filmes de Tarantino me fazem pensar que não, ele não cedeu ao machismo nesta história, mas quis realmente construir uma personagem feminina tão odiosa quanto qualquer outro vilão masculino. Mas seu texto me fez olhar para a minha postura com relação a ela – mesmo sendo também uma criminosa, eu ainda sinto pena dela, o que é um mal sinal – e a entender que sim, o machismo está lá de alguma forma, porque ecoou com o meu machismo de enxergar mulheres como “donzelas a serem salvas”.

    Com relação ao uso do “nigger”, isso também me incomoda, não pelo fato do uso da palavra em si, que, em momentos históricos como em Django ou Hateful Eight são apropriadas e cutucam bastante o nosso racismo, mas pelos inúmeros depoimentos da comunidade negra de que o uso era excessivo e agressivo. Como homem branco ele deveria escutar essas vozes, mas ele já demonstrou que não vai mudar – uma pena, porque ele criou personagens negrxs que realmente problematizam o racismo.

  • Identificador de babaca

    Eu ainda estou no aguardo de um texto seu coerente…. sem vitimismo!
    No aguardo…

    • Collant Sem Decote

      Migo, eu fico imaginando como vc se sente toda vez que se olha no espelho de manhã, heim? Não deve ser fácil ser você e ter esse poder! Boa sorte aí.

  • Izord Draenei

    Olá, Reebeca, adorei seu texto, me fez pensar bastante e queria deixar aqui meu elogio pra ti e pra todas do site que é magnífico o trabalho de vocês. Mas também queria deixar aqui minha opinião sobre o caso:
    Eu tava lendo e (não vi ainda o filme) tudo estava fazendo sentido pra mim, e estava altamente disposto e inclinado em concordar 100% com tudo que estava lendo, pena mesmo que o filme tome estes rumos para com a personagem feminina, eu pessoalmente temia que isso acontecesse devido ao cenário apresentado no trailer mas tinha esperanças de que ela tivesse outro papel. Mas enfim, eu ia concordando com tudo até que tu mencionou duas coisas que me fizeram pensar melhor e voltar atrás: Jackie Brown e Kill Bill.
    Meu raciocínio é assim, um cara que faz Kill Bill não pode ser misógino, não teria como. Ela não foi nem sexualizada durante a história pra se valer do artificio comum machista quando se cria uma personagem feminina como protagonista. Ele fez um trabalho ruim neste filme no sentido feminista da coisa? Sim. Ele errou e este pode ser um filme que eu não curta tanto mas não creio que teve intenção misógina, creio que houve outra coisa e já vou apontar depois do próximo ponto.
    Um cara que fez Jackie Brown e Django pode ser racista? Sim. Pra ser racista, não compreender bem o sentimento e causa negra basta ser branco. Mesmo o mais esclarecido dos brancos tem uma ínfima parcela de racismo em si e tem de lutar com isso todo dia (minha opinião). Logo ele pode ter essa falha de abusar de “nigga”, talvez pudesse repensar um pouco ao menos a quantidade e qualidade do uso da palavra mas não acho que ele não tenha empatia pela causa e comunidade negra, acho que tem sim (vide seus trabalhos com os dois filmes citados) mas o que ocorre é que, creio eu, que ele não discute a respeito e faz como faz porque ele escreve histórias violentas sobre pessoas violentas, nunca sobre pessoas boas, sempre os piores da humanidade, as histórias que ninguém gostaria de ouvir na vida real, não foram histórias criadas para jovens influenciáveis, não foram pra servir de exemplo, são histórias cruéis sobre pessoas intratáveis e somente aqueles que já tem estes conceitos bem definidos deveriam assistir este tipo de história, não aqueles que vão achar o máximo o comportamento destes personagens e sair repetindo “nigga” e “bitch” (o que eu sei que não é possível controlar, apenas divagando no como deveria ser). Dito isso eu creio que isso é tudo uma questão de como aquele crápula se comporta e como falaria ou agiria. Ele é escroto e machista, ele xinga a personagem de vadia, eles são todos filhos de uma sociedade branca eurocêntrica, são racistas e ruins, eles chamam por “nigga”. Não sei se fiz valer meu ponto de vista, se deixei claro, mas enfim, eu creio que ele não é uma pessoa ruim mas ele conta histórias sobre pessoas ruins, devemos estra preparados pra ver isso e evitar que mentes em formação assistam, sei que ter isso como desculpa não ameniza ele ignorar apelos da comunidade negra mas ele age de acordo com sua crença de que seu trabalho não tem a função da qual as pessoas acusam de ter, seus filmes são para servir de exemplo a NÃO seguir e variavelmente conta boas histórias no processo; eu prefiro pensar que ele não é machista nem racista (não é racista dentro de certos parâmetros, ele ainda pode ser sem querer como acontece com todos os brancos, mas eu gosto de pensar que ele é uma das pessoas que luta contra isso) e sim um cara meio arrogante que tem ideia bizarras pra histórias medonhas.

    • Collant Sem Decote

      Izord, eu não disse que o Tarantino é misógino, mas machista. Misógino é uma pessoa que odeia mulheres, machista todo homem é. Por mais boa pessoa que um cara seja, por mais apoiador das causas feministas, todo homem é machista porque é assim que a sociedade os cria. Desde pequenos vocês recebem um monte de idéias deturpadas do que é “ser homem” e o que é “ser mulher”, e isso afeta o modo como vocês se relacionam com mulheres, como lidam com os seus sentimentos e etc.
      Apesar de mulheres não serem machistas (porque não dá pra ser algo da qual se é vítima direta) nós também crescemos com muitos conceitos machistas e por isso inclusive replicamos ações e pensamentos machistas. Ou seja, nós também não estamos livres de cometer erros que podem ser considerados machistas.
      Tarantino fez Kill Bill, e eu até gosto do filme, mas fazer um filme com protagonismo feminino não o exime de erros. Se George Miller, diretor de Mad Max, fizer um filme em que o machismo acaba transparecendo, isso será porque apensar de Furiosa e Mad Max serem incríveis, ele também não está ileso de errar no futuro.
      Que ele é arrogante isso parece bem estabelecido, mas por mais que “o coração” dele esteja no lugar certo, ignorar e silenciar as críticas de pessoas negras me parece negar o próprio privilégio. =

      • Izord Draenei

        De acordo, tu tens bons pontos. Mais uma vez, obrigado pelas matérias e diálogo mantido aqui, faz refletir bastante e são de ótima qualidade. Ignore os estúpidos que vem aqui só pra destilar xingamentos gratuitos e bobagem, vocês do site merecem mais do que isso. 🙂

  • Lolita Gimenes

    Eu não sou fã do Tarantino e o único outro filme q eu vi dele foi “Django Livre”, mas não sei…saí do filme com a impressão de que ele escreveu o roteiro cheio de preconceito e machismo e depois colocou numa época que convinha pra justificar(pode ter sido só pra polemizar como vc falou no texto mesmo). E o q mais me doeu foi ter q sair do cinema com meus amigos dando risada relembrando das cenas em q a Daisy levava um murro na cara e era mandada a “calar a boca”

  • Puta texto mal escrito e implicante

  • Me Desculpe, Dave

    Filha, desculpa, mas to desconfiando que cê num entendeu a proposta da parada. Sinceramente, acusar Tarantino de machismo e racismo é procurar pêlo em ovo. Mas se você procurava um retrato do velho oeste como uma terra onde reina o politicamente correto…

    É claro que o protagonista, negro, é um retrato de um homem tentando sobreviver ao racismo nos EUA. A carta que ele usa – e isso é explicito no filme- e uma arma de sobrevivencia.

    Agora, perceba como a cabana na neve é uma representação dos Estados Unidos (o “carrasco” oswaldo Mobrey chega a dividir a cabana em estados…) e todos os personagens presentes são representações dos estereotipos americanos. A mulher (as mulheres), os negros, os racistas, os mexicanos…. E no final todos se degladiam e morrem. O plano final quando eles lêem a carta e mostra o corpo de domergue com o braço do carrasco ainda algemado ao dela, justamente quando na carta se lê “de mãos dadas construiremos o pais” ou algo assim, não é a toa. Alias, o cinema, preza por metáforas visuais, já que é uma obra audiovisual. Nada está lá a toa, mas o expectador médio não presta muito atenção aos detalhes esteticos do filme.

    leia a critica do pablo villaça, um dos maiores criticos do brasil: http://www.cinemaemcena.com.br/Critica/Filme/8223/os-oito-odiados

    Depois reveja o filme. E aprenda a interpretar subtexto da trama. Depois vem aqui e apaga o post que ainda dá tempo 😉

    Bjos de Luz.

  • Andre “Deko” Izaguirres

    Rebecca, por uma questão de curiosidade…
    Você se define “nerd”, correto?
    Você sabe programar em assembler?
    Você acompanhou o avanço da Voyager1 através da heliopausa?
    Você acompanha os últimos relatórios do NOAA sobre a diminuição da taxa de foramníferas?
    Grato pela atenção. o/

    • Rebeca Puig

      *assembly

    • Collant Sem Decote

      *assembly

      • Andre “Deko” Izaguirres

        Perdão, “assembler” é o ambiente em que roda o dialeto “assembly”, salvo exceção e se a modernidade já apagou o passado.

        • Collant Sem Decote

          Diferente de você, que tenta cobrar carteirinha nerd de mina, tá perdoado. Mas puramente porque eu não me importo de verdade.
          Se toca, cara. Melhore.

          • Andre “Deko” Izaguirres

            Sem cobranças. É apenas um questionamento.
            Para um melhor entendimento do “que” e “para que”, num ambiente em que se autodefinir “nerd” virou, aí sim, concordo com você, carteira de entidade de classe.
            O que é “nerd”? A “carteira” de “nerd” torna o conteúdo do discurso mais, digamos, fundamentado?

          • Catena’s Beauty Atelier

            Rs, é sempre assim. Feministas sempre fogem de uma discussão com “argumentos” do tipo. Raça mais covarde de todas. Só sabem se defender por trás de um escudo que é um misto de coitadismo e raiva.

            “Ain eu falo um monte de merda e não preciso me provar porque sou mulher. Chupa sociedade”

  • José Alencar

    Seu texto é bobo, mas entendo as motivações e o que defende, que são justas.

  • Denis Emilio

    Em um primeiro momento, o Tarantino pode parecer racista, mas garanto que não é, TODOS os personagens racistas em seus filmes morrem haha. Sou um grande fã dele, e estou no seu blog por acaso rs, e fiquei com a mesma sensação que você, faltou um Q no personagem dela, algo que daria a uma espécie de “satisfação ” quando ela eh enforcada, a mesma satisfação quando a suástica eh cravada na testa do caçador de judeus em bastardos inglórios. E também desconfiei de machismo, mas conhecendo o Tarantino, ele pode ter diminuído o peso dela para só filmar o irmão dela tendo os miolos sendo espalhados na cara dela haha. Em defesa dele, a filmografia dele, não costuma ser machista, mas devido o contexto social que vivemos, sua observação é justificável.

  • Catena’s Beauty Atelier

    Mas é a personagem mais feminista de todas… afinal, ele apanha, apanha, apanha e continua falando merda. rs

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