Não é novidade para ninguém que me conhece, ou que acompanhe algumas coisas que eu faço, que eu sou apaixonada por Dragon Age. Atualmente é a minha franquia de jogos preferida por inúmeros motivos. Uma das coisas que sempre mexeu comigo nesses jogos é o fato de ter alguma preocupação com a representatividade nos seus personagens.

Eu vou dizer isso logo no começo: Com esse texto, não quero dizer que as representações em Dragon Age são perfeitas, nem que o jogo inteiro seja diverso o suficiente. Se tem uma coisa que eu sempre aponto em qualquer jogo, incluindo os da Bioware, é que sempre tem espaço para melhorar. Porém, como alguém que joga alguma coisa por aí, é difícil ver algum título que mostre qualquer coisa que fuja do padrão hétero e cis. Eu me vejo representada em Dragon Age de formas que às vezes não me vejo em outros lugares.

Então resolvi fazer uma série de textos falando sobre como a representatividade LGBT+ é tratada no universo de Dragon Age. Nesse primeiro texto, vou falar sobre o primeiro jogo da franquia, o Dragon Age: Origins.

Muitas vezes ouvimos falar sobre como o gênero da fantasia medieval não tem espaço para diversidade. Esse inclusive é outro assunto que eu falo muito, porque eu amo fantasia medieval e, como consumo muito, fico frustrada por não me sentir tão representada. Mulheres acabam aparecendo às vezes, mas personagens LGBT+ são poucos. Há essa ideia completamente errada de que não existiam pessoas LGBT+ “naquela época”. Eu já falei muito sobre isso, mas resumindo: “aquela época” nunca existiu e, mesmo que a fantasia medieval representasse fielmente a nossa época medieval (que não é o caso), não dá para dizer que só existiam pessoas cis e hétero.

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Então para mim é ainda mais legal que uma franquia grande de jogos se preocupe em colocar personagens LGBT+ nas suas histórias, não só coadjuvantes pequenos que são descartados, mas personagens que são importantes para o jogo.

A franquia Dragon Age começou em 2009. Os jogos se passam no continente de Thedas, um universo em que temos dragões, elfos, magos… Todas aquelas coisas que tanto amamos na fantasia medieval. Cada jogo conta uma história diferente, eles não são continuações completamente diretas do jogo anterior. No caso de Dragon Age: Origins, você controla um Guardião Cinzento que precisa impedir o Blight de destruir Ferelden.

Uma das grandes características dos jogos da Bioware são as opções de romance. Na sua equipe, alguns personagens podem se tornar um interesse romântico para o seu personagem. A partir daí, os escritores do time viram uma chance de colocar alguns que fossem LGBT+ na equipe.

Comecei a jogar Dragon Age: Origins, o primeiro da franquia, junto com um amigo meu. Ele tinha um personagem homem e queria fazer o romance com o Alistair, que é hétero. Eu comecei a procurar na internet se tinha algum jeito de fazer o romance mesmo assim. Não encontrei nada que não incluíssem mods, mas descobri que outro personagem, Zevran, era um homem bissexual. Eu nunca vou esquecer como nós ficamos felizes com aquilo, que pode não ser pouco para muita gente, mas que querendo ou não acabamos não vendo tanto.

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Dragon Age: Origins não é um grande exemplo de personagens LGBT+, mas o jogo tem dois personagens com espaço que fogem do padrão hétero. Leliana, uma das personagens da sua equipe, é uma mulher bissexual. Ela é uma barda que acredita que precisa ajudar o protagonista na sua missão de impedir o Blight. Em Dragon Age, parte do crescimento dos personagens depende das suas ações, mas mesmo com isso Leliana tem um arco interessante. Ela vem de um passado conturbado, onde ela encontrou na religião andrastiana um refúgio que deu sentido para a personagem.

Não é muito comum vermos um lado religioso em personagens LGBT+, talvez porque há pessoas que usem do discurso religioso para dizer que pessoas que fogem do padrão cis e hétero estão erradas. Mas a sexualidade da Leliana nunca é uma questão colocada em pauta quando falam de sua religião. Na verdade, nenhuma das grandes questões da vida de Leliana tem a ver com a sua sexualidade. É legal que personagens LGBT+ abram espaço para discussões sobre pautas sociais fora da ficção, mas ao mesmo tempo, às vezes, eu só quero ver um personagem bissexual que tem outras preocupações na vida que não envolvam sua sexualidade, afinal nossas vidas não são apenas isso.

Além disso, Leliana ganha um espaço muito grande ao longo dos jogos, ela é uma das personagens de maior peso na franquia. Mesmo que partes disso seja definido pelo jogador, o arco dela faz mudanças bem legais acontecerem na personagem. A Leliana do último jogo parece bem diferente da Leliana do primeiro, mas dentro da história isso faz sentido.

O outro personagem LGBT+ de peso no jogo, como já mencionei antes, é o Zevran. Ele é um dos meus personagens favoritos da franquia e ele possui várias camadas na sua construção, mas vou me focar aqui na questão da sexualidade. No começo, Zevran parece ser um personagem bem unidimensional. Ele é um assassino que foi contratado para matar o protagonista, mas falha e oferece seus serviços para o seu personagem para não ser morto. Você pode matá-lo e seguir o jogo sem o personagem, mas também dá para recrutá-lo.

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Zevran é o personagem da equipe que flerta com todo mundo, que faz piadas sem noção, dá risada de tudo e tenta não levar a vida tão a sério. No começo, parece que ele é só isso, mas quando você vai conhecendo o personagem, descobre que há toda uma construção que explica as decisões dele até o momento. Assim como Leliana, Zevran passou por muitas questões complicadas no passado que vão aparecendo a medida que seu personagem vai ficando mais amigo dele. Aliás, é muito legal que em Dragon Age nós vamos descobrindo mais dos personagens dependendo do nosso nível de amizade com eles, afinal na vida real é assim com as pessoas também.

Ele, ao contrário de Leliana, é um personagem em que a sexualidade é uma característica mais evidente. Zevran fala abertamente sobre essas questões e se ele tivesse uma ficha de RPG a característica “sedução” teria muitos pontos. Quando ele fala de seu passado, explica que os Corvos, a guilda de assassinos, o ensinaram a usar isso ao seu favor.

Geralmente nas representações da ficção, a mulher bissexual é a que aparece mais como promíscua ou indecisa. Em Dragon Age: Origins, Leliana não se encaixa nesse estereótipo. Na verdade, o romance dela é um dos mais lentos de começar, ao contrário do que muitas pessoas escreveriam caso estivessem criando uma personagem bissexual. Se fosse para colocar algum deles no “estereótipo promíscuo”, seria o Zevran, mas ele não é só essa característica.

Esse tópico é um pouco polêmico. Para mim, o problema da representação não é só o estereótipo, e sim que essa seja a única opção. Basicamente: o problema não é necessariamente um personagem bissexual “pegar todo mundo”, e sim que ele seja a única representação bissexual que exista no universo. É importante termos personagens bissexuais que se afastem dos clichês, afinal existem pessoas bissexuais de todos os jeitos (pasmem, assim como em todas as outras sexualidades). Porém, também é possível criar personagens que mostrem alguns clichês e que vão além disso. Ser uma pessoa bissexual que tem vários parceiros ao longo da vida não é ruim nem errado. Ser uma pessoa bissexual que não gosta de se “rotular” não invalida sua sexualidade. O que mais faz a ficção errar nessa representação é sempre repetir essas características e resumir os personagens à elas.

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Um exemplo que ilustra o que eu quero dizer: Sansa. Pensando na representação feminina, ela se encaixa em alguns clichês. Ela é a nobre da fantasia medieval que não luta, que queria casar com um príncipe, que possui vários aspectos considerados femininos. Porém, quem vê Game of Thrones sabe que ela é muito mais do que isso. A personagem não teve a melhor escrita sempre (oi quinta temporada, tô olhando para você), mas é um exemplo que mostra o que eu quero dizer.

O fato de ter mais de um personagem bissexual no jogo ajuda a não limitar. Sem contar que nenhum dos dois personagens podem ser reduzidos ao que eles parecem ser no começo (assim como os outros membros da equipe). Óbvio que isso vai depender da interação do jogador com o jogo, se o seu protagonista não falar com os personagens, você não tem como conhecer tanto suas camadas como poderia.

A Bioware podia ter feito com que nenhum dos dois personagens caíssem em algum clichê? Sim. Seria melhor? Talvez, depende do como eles fossem escritos, então é válido que esses aspectos também sejam criticados. Aliás, há pontos nos dois personagens que podem ser criticados. Também seria legal ver uma história com vários personagens bissexuais e todos eles muito diferente do que o que vemos normalmente. Como falei no começo do texto, não estou falando de algo perfeito, mas de uma representação que acredito ter pontos positivos. Também é possível apontar o fato de que, mesmo que esses dois personagens sejam muito legais e eu me sinta representada de algumas formas, eles poderiam ter mais espaço. Em toda equipe de Dragon Age, há alguns personagens que acabam aparecendo mais que outros. Por mais que Leliana vá crescer bastante ao longo da franquia, nesse primeiro momento o destaque vai para Alistair e Morrigan, ambos hétero (mas que também são personagens muito bons). O jogo poderia também ter colocado mais representação além desses dois.

Apesar de gostar muito desses dois personagens, Dragon Age: Origins poderia ter feito melhor. Há inúmeros fãs trans do jogo que apontaram a transfobia nos NPCs menores em Denerim (a capital de Ferelden), onde mulheres trans eram tratadas como se não fossem mulheres, o que é um problema. A representação de Dragon Age: Inquisition avançou desde Dragon Age: Origins. Eu nem estou falando que o terceiro jogo da série é perfeito, também não é e falarei disso em outro texto, mas acompanhando a equipe de criação de Dragon Age e jogando desde 2010, eu vejo que há uma preocupação, há pessoas ouvindo os feedbacks e tentando melhorar. Por isso é sempre importante continuar reclamando, para que o próximo jogo tenha ainda menos problemas e mais pontos positivos.

Nos próximos textos, falarei das representações LGBT+ em Dragon Age 2 e Dragon Age: Inquisition.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.

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