Não passa ano sem que a Marvel ou a DC tenham problemas com suas capas de revistas e, para surpresa de ninguém, a polêmica acontece sempre com capas que possuem personagens femininas. Aconteceu com a Mulher Aranha do Manara, aconteceu com a Batgirl, aconteceu com a Mulher Maravilha e agora acontece com Riri Williams.

Iron Man #1 é a revista que vai apresentar Riri Williams para o universo da Marvel sob o codinome Ironheart, a revista na qual ela assume de vez o manto de heroína. É muito comum que em ocasiões especiais, como o lançamento de uma nova personagem ou de uma nova revista, as comic shops americanas contratem artistas para fazer capas alternativas, edições de colecionador. E tá tudo bem, eu também adoro capas alternativas e tenho algumas em casa. O problema acontece quando a comic shop não escolhe artistas que estejam aliados com o tom, com a temática da revista, com a personagem ou mesmo, sei lá, com os tempos atuais.

Tem muitas coisas erradas com as capas desenhadas por J. Scott Campbell, então vamos passar por cada um dos problemas.

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– As duas capas variantes tem preços diferentes –

Poucas pessoas estão falando sobre isso, mas não foi uma capa que o quadrinista desenhou, foram duas. Numa delas Riri aparece usando um crop topped, na outra ela usa a sua armadura. Se o colecionador/leitor quisesse levar para casa a edição em que a personagem usa a armadura ele teria que desembolsar $10, mas se quisesse levar para casa a edição em que Riri está de barriga de fora… 15$.

Ou seja, a versão em que a personagem está usando menos roupa custa mais caro do que a versão em que ela está completamente vestida, usando a armadura que lhe concede os poderes que a tornam uma super-heroína. Se essa diferença de preço nos diz alguma coisa é que a intenção aqui é vender o corpo objetificado da personagem. Seja lá de quem tenha sido essa decisão, do artista ou só da comic shop, transformar o corpo feminino em objeto teria sido ruim em qualquer situação, mas fica pior porque…

– Riri é uma adolescente –

J. Scott Campbell começou a trabalhar com quadrinhos na década de noventa, talvez a pior época para personagens femininas no que tange uniformes minúsculos e posições ginecológicas. Campbell ajudou a criar Gen 13, uma equipe de super-heróis adolescentes em que todas as personagens femininas eram extremamente sexualizadas, e talvez naquela época isso passasse batido, mas nós não estamos na década de 90. Ela acabou faz 16 anos.

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Acreditem ou não, essas pessoas são adolescentes.

A indústria norte-americana de quadrinhos tem um problema com a hipersexualização de persongens femininas adolescentes que não é de hoje, e o próprio Campbell pode ser visto como o resultado desse tipo representação. Quando ele começou a trabalhar na indústria, Campbell tinha recém se formado no colegial, ou seja, ele próprio era um adolescente, faz sentido que depois de ano consumindo material que hipersexualiza personagens femininas, adolescentes ou não, ele tenha criado Gen13. Só que hoje ele não é mais um adolescente, ele é um homem adulto de 43 anos de quem se espera não só profissionalismo, mas também o discernimento de não hipersexualizar uma personagem adolescente.

Podia ser pior? Sempre pode. Gen13 é um exemplo clássico de como podia ser muito pior, mas também temos Kate Bishop (desenhada pelo próprio Campbell), Wonder Girl quando foi apresentada em Novos 52 ou Supergirl semi-nua no traço de Michael Turner. Até Dust, uma X-Men adolescente que tem a modéstia como parte dos seus princípios e tem seu corpo coberto por um niqab não escapou. Todas elas são garotas adolescentes desenhadas em corpos adultos, um fenômeno muito comum de ver meninas como mulheres, que ajuda não só a bagunçar o emocional das adolescente, mas também as vitima já que essa representação sustenta que elas são mais experientes e mais fortes que os pobres garotos adolescentes. É só olhar o modo como o Mutano está desenhado ao lado da Wonder Girl e perceber como personagens masculinos podem ter traços adolescentes, mas femininos não.

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Não é difícil notar que o corpo adolescente é diferente do corpo adulto, tudo que você precisa fazer é olhar as suas próprias fotos aos quinze anos, e agora. Ou as fotos de seus pais ou seus irmãos. Há um diferença muito grande, já que aos quinze anos de idade seu corpo ainda está se desenvolvendo, você está se adaptando ao seu novo corpo, você caminha diferente, você se posiciona diferente – tudo é diferente. E sim, algumas meninas tem seios grandes, e muitas adolescentes usam top cropped. Mas simplesmente ter seios grandes e usar top cropped não é hipersexualizá-las é o modo como você as desenha que faz isso. Adolescentes são adolescentes, e deveriam ser desenhadas como adolescentes.

Existem ótimos exemplos de adolescentes nos quadrinhos de super-heróis, Kamalah Khan, Moon Girl, a nova Power Girl, Gotham Academy inteira, Silk e Spider Gwen. E elas são representações tão legais porque em momento nenhum se esquece que elas são adolescentes, desde a narrativa até o design de seus uniformes, passando pelo modo como são apresentadas, tudo nelas mostra a fase da vida na qual elas estão. A identificação dos leitores adultos vem da qualidade da história contada e da personagem desenvolvida. É uma identificação saudável e positiva.

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O modo como garotas adolescentes são representadas afeta principalmente…. Garotas adolescentes, que já estão passando por um dos momentos mais desafiadores quando falamos sobre formação de auto-estima e auto-apreciação. Se ver representada dessa maneira mostra uma ideal de imagem que nunca vai ser alcançado – e que não deveria ser desejado, já que elas são adolescentes, não mulheres adultas. Peter Parker foi representado como o adolescente que ele era por anos, Riri não conseguiu nem bater a primeira revista antes de ser adultizada e hipersexualizada.

Oh, tem mais essa. A personagem foi baseada numa adolescente real, mas nem assim eles conseguiram representá-la como tal.

Oh, tem mais essa. A personagem foi baseada numa adolescente real, mas nem assim
eles conseguiram representá-la como tal.

– O Modo como Mulheres Negras São Representadas na Mídia –

Uma das coisas que chamou atenção na personagem quando ela foi lançada é que Riri não era só uma garota negra, ela era uma garota negra de pele escura. Quando falamos sobre representação da mulher negra não é muito difícil notar que a maioria das personagens negras não possuem o tom de pele escuro. Isso importa porque pessoas negras de tom de pele mais claras tendem a ser mais “aceitas” dentro da sociedade, enquanto pessoas de tons de pele mais escuras, não. Para garotas, e mulheres, negras e de tom de pele escura Riri é muito importante, e o tom de pele dela também.

Além disso mulheres adultas e adolescentes negras são hipersexualizada com mais frequência, e de maneiras piores, do que mulheres brancas. Há todo um peso histórico de como as mulheres negras foram tratadas pela sociedade branca ocidental, sobre como elas foram representadas na arte branca ocidental e isso pesa também nas HQs. Ver uma super-heroína que carrega o peso que Riri hipersexualizada traz junto todo um peso de opressão histórica não só de gênero, mas também de etnia. O fato dela ser uma garota adolescente só pior tudo.

A capa variante, e a capa que apresentou Riri, desenhada pelo brasileiro Mike Deodato.

A capa variante, e a capa que apresentou Riri, desenhada pelo brasileiro Mike Deodato.

Eu sugiro a leitura dos textos:

 Black Childhood Deferred: The Sexualization and Decolorization of Riri Williams para uma visão mais aprofundada sobre como mulheres negras são hipersexualizada e embranquecidas pela cultura racista e patriarcal.

Moon Girl, Representatividade e a Quebra de uma História Única, para entender melhor o porque personagens como Riri são tão importantes.

Assim que mais textos sobre este assunto forem surgindo eu vou colocando os links por aqui.

– A armadura –

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Desde que Riri foi anunciada se fala sobre como seria a armadura dela, e tanto os primeiros desenhos, como os liberados após a polêmica, mostram que a armadura não possui os tão odiados booby plates. Mas a versão de Campbell, tem. Enquanto a versão original mostra um peitoral mais preocupado em manter a personagem protegida, a capa alternativa possui um design mais angulado, evidenciando o booby plate.

Caso você ainda não saiba, booby plates são desconfortáveis e ao invés de ajudar a proteger, apenas aumentam a chance de um ataque corporal causar maior dano à região do coração da mulher, já que a angulação do metal proporciona à lâmina uma angulação que a direciona direto ao centro do seu peito. Onde fica o coração. E as pessoas morrem se seu coração é atingido. Caso você não saiba.

– Mas esse é o estilo do artista –

Sim, J. Scott Campbell é conhecido por desenhar mulheres extremamente objetificadas, com o mesmo rosto, em posições bizarras e com uniformes que na verdade são pinturas corporais. Nada disso, no entanto, advoga a favor do artista, só mostra o quão problemático o trabalho dele é. Como eu já disse antes, para um adulto desenhando uma adolescente de quinze anos, o mínimo que podia-se esperar era bom senso. Se o seu estilo não condiz com a idade da personagem… Talvez recusar o trabalho? Mudar um pouco o modo como você desenha, já que ela não é uma mulher adulta?

Mesmo rosto. Posições semelhantes. Tecidos que não fazem sentido. O ~estilo~ do artista.

Mesmo rosto. Posições semelhantes. Tecidos que não fazem sentido. O ~estilo~ do artista.

A decisão da loja de escolher um artista como J. Scott Campbell, com o “estilo” que ele tem, também é ou ingênua ou proposital. Levando em consideração a diferença de preço entre as capas da revistas, me parece mais proposital do que um “erro honesto”. Ninguém acertou na produção dessa capa, nem a Marvel, que ao invés de se preocupar em manter as capas alternativas em tom semelhantes ao da sua revista, também não se preocupou em avisar a equipe criativa da HQ. O mesmo erro que a DC cometeu quando da capa de Rafael Albuquerque para Batgirl. As editoras precisam começar a assumir responsabilidade também pelo material que deriva de seu trabalho, não dá para ignorar o que artistas contratados por terceiros fazem com o seu material. É preciso haver uma preocupação em aproximar esses trabalhos do tom das revista, caso contrário esses erros vão continuar acontecendo.

A hipersexualização não é um estilo, é uma constante no trabalho de artistas que se recusam a sair da sua zona de conforto, uma zona construída por anos às custas de personagens femininas que ate podiam ter uma história legal, mas que eram representadas como pouco mais do que objetos sexuais. Esse status quo, no entanto, está mudando, e se eles não se adaptarem vão acabar ficando para trás, como já é o caso de alguns ilustradores nacionais.

– Para fechar – 

Duas capas variantes, a de J Scott Campbel, e a de Mike McKone, que mostra Riri de cropped top e, apesar do tom de pele mais claro, consegue não hipersexualizá-la. Ela possui o corpo de uma adolescente.

Duas capas variantes, a de J. Scott Campbel, e a de Mike McKone, que mostra Riri de cropped top e, apesar do tom de pele mais claro, consegue não hipersexualizá-la. Ela possui o corpo de uma adolescente.

Não tem nada de errado em um adulto acompanhar as aventuras de uma personagem adolescente, mas é preciso lembrar que o adulto pode até ser o leitor, mas isso não deve interferir em como essa personagem é representada. Querer que uma personagem adolescente represente o desejo masculino adulto por uma mulher adulta é perturbador, e eu nunca vi o Peter Parker adolescente sendo representado de quadril quebrado para o lado e peitoral de fora. Deixemos adolescentes serem retratados como adolescentes, e se nós, adultos, vamos nos identificar com os personagens, então que seja porque eles são bem escritos e desenhados, não porque eles representam um ideal hipersexualizado do que a sociedade quer que uma garota adolescente seja.

Brian Michael Bendiz, criador da personagem, não sabia da existência da capa até que a polêmica se instaurou. A Marvel retirou a capa de circulação. Já Campbell disse que as críticas não o afetavam, o que é uma pena. Mais uma vez um artista homem deixou de ouvir, aprender e evoluir com as críticas, optando por permanecer no seu mundinho fechado de auto-apreciação, um mundinho que vai sim sendo desmontado aos poucos. É uma pena que ele não tenha tido a postura de Rafael Albuquerque, de ao menos entender que o tom do seu desenho não corresponde com o da personagem/revista.

O mercado de quadrinhos está mudando, eu diria até que já mudou bastante, e ele vai cobrar cada vez mais uma representação mais igualitária e de qualidade. Isso quer dizer que o público vai cobrar quando as editoras e os artistas pisarem na bola, quer dizer que quando uma personagem adolescente for criada e desenhada, nós vamos exigir que ela seja retratada dessa maneira.

Em tempo, os sketches de Riri que a Marvel liberou após a polêmica. Não tá uma adolescente puro amorzinho? ;)

Em tempo, os sketches de Riri que a Marvel liberou após a polêmica. Não tá uma adolescente puro amorzinho? 😉

Crédito das Imagens: Marvel Entertainment, DC Comics.

[Atualização 27/10: O texto foi alterado para informar corretamente o tipo de roupa que a personagem Dusk usa.]

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