O Oscar ainda tem um LONGO caminho para frente até conseguir deixar de ser majoritariamente branco e incluir negros, latinos e outras minorias nos seus indicados. Esse ano teve muita participação negra, mas como já se sabia, ela foi limitada aos apresentadores.

Mas alguns momentos foram tão tocantes e importantes para a representação feminina que ficou impossível não se emocionar. Por mais que eu ache a escolha de um homem para falar sobre cultura do estupro logo antes da apresentação da Lady Gaga ser infeliz (Michelle Obama teria sido mais interessante), Joe Biden é o vice presidente dos Estados Unidos então a mensagem vem carregando um peso e um respaldo - e foi uma mensagem muito correta.

Eu vou intervir em situações onde consentimento não pôde ser ou não foi dado. Vamos mudar a cultura. Nós devemos e podemos mudar a cultura para que nenhum homem ou mulher abusados, como os sobreviventes que você vai ver hoje, sinta que deve se perguntar “O que eu fiz?” - Eles não fizeram nada de errado.

Além disso, a apresentação de Lady Gaga derramou todas as nossas lágrimas. A música forte e muito certeira, a presença de todas as sobreviventes, o modo como elas (e eles) estavam emocionados, o modo como a platéia reagiu tudo culminou numa emoção muito forte. Ver abuso sexual ser tratado assim num evento grande como o Oscars é muito importante, e querendo ou não dá uma aquecidinha aqui de que a gente está no caminho certo.

Teve ainda a incrível Sharmeen Obaid-Chinoy’s, que ganhou o Oscar de Melhor Curta Documentário por “A Girl in the River: The Price of Forgiviness” (A Garota dentro do Rio: O Preço do Perdão), um retrato íntimo e perturbador de Saba Qaiser, uma mulher de 19 anos que sofre tentativa de assassinato por honra. Sharmeen, apesar de ter tido que lutar com a música muito alta que espanta os ganhadores do palco, ainda entregou uma das frases mais inspiradoras da noite.

Isso é o que acontece quando mulheres determinadas trabalham juntas.

Brie Larson, que ganhou o Oscar por O Quarto de Jack, em que interpreta uma adolescente sequestrada por sete anos que é estuprada e tem um filho com seu sequestrador, dividiu um momentinho da noite com cada uma das sobreviventes que estiveram no palco com Lady Gaga.

Apesar de todas essas coisas legais, é importante lembrar que diversidade continua sendo um problema nos Oscars. Tivemos mulheres negras no palco como apresentadoras, mas ainda é preciso um longo caminho para que a representação feminina seja de fato diversa. Vinte e oito mulheres negras foram indicadas nas duas categorias de melhor atriz, apenas sete ganhara e apenas uma na categoria de Melhor Atriz. Apenas sete mulheres de ascendência asiática foram indicadas nas duas categorias, e apenas duas delas ganharam. Apenas três mulheres latinas foram indicadas ao Oscar e nenhuma ganhou - inclusive Fernanda Montenegro, porque é aquela coisa: nós também somos latinas.

Outro ponto que é importante ressaltar é a diferença dos papéis pelos quais os homens foram indicados ao Oscar, e pelos quais as mulheres foram indicadas. Esse ano é um bom ano para se ter uma amostra do tipo de personagens que ~ganham oscars~ para cada gênero.

Personagens femininas

Mulher dividida entre marido e amante, mãe sequestrada e violentada, mãe empreendedora, mulher se separando, mulher apaixonada.

Personagens masculinos

Roteirista, astronauta, desbravador, gênio da computação, mulher trans.

Por mais interessantes, profundos e importantes que os papéis femininos desse ano possam ter sido, ainda sim fica muito evidente que Hollywood precisa melhorar na questão da representação feminina. Homens recebem papéis tão diversos que pode ser desde astronautas até MULHERES trans (sério, WTF?), enquanto os papéis femininos são em sua imensa maioria ligados à relacionamentos e à maternidade.

O Quarto de Jack e Carol apresentam uma variação do que a gente normalmente vê como o arquétipo da mãe e da mulher dividida entre o marido e a amante, NO ENTANTO, as personagens continuam cabendo dentro dessa generalização - e isso não desmerece o quão bons os personagens e os filmes são, é apenas uma consideração sobre Hollywood.

Aliás, além de novamente termos um ator cis interpretando uma personagem Trans, esse Oscars também foi marcado pela falta de ANOHNI, primeira cantora trans a ser indicada e que a organização achou que não precisava se apresentar. Porque eles acharam que esses tipo de representatividade não seria uma coisa positiva, não consigo entender. Uma oportunidade perdida para dar voz à uma parcela da nossa sociedade que, inclusive nesse Oscars, é silenciada e substituída por pessoas cis.

Então vamos comemorar essa discussão muito importante que o Oscar nos trouxe esse ano, mas mantendo em mente que ainda há um longo caminho para se caminhar até que TODAS nós estejamos bem representadas.

<3