Persépolis é uma HQ autobiográfica escrita por Marjane Satrapi. A história choca e emociona muitos leitores, principalmente pela sua complexidade. Muitos conhecem Persépolis pela animação que concorreu ao Oscar em 2008. Até mesmo para quem assistiu ao filme, a leitura do livro é recomendada, não apenas pela HQ ser uma obra incrível, mas também pela reflexão levantada por ele sobre a construção social da mulher e seu papel em diferentes sociedades.

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A história trata das diversas fases da vida de Marjane, que foi criada numa família permeada por ideais liberais e muito crítica quanto à situação de seu país, o Irã. Por influência dos pais, ela aprende muito cedo o que é militância.

Contudo, em 1979, a Revolução Islâmica mudou para sempre a vida de Marjane, que tinha dez anos. Os xiitas subiram ao poder e a menina, que sempre se viu como uma defensora das liberdades individuais e sociais, se viu numa condição degradante: o Estado demandava que as mulheres usassem véus, já que seus cabelos seriam objetos de excitação para os homens. Além disso, valores ocidentais começaram a ser completamente rejeitados. Ela não pôde mais estudar francês e até sua escola se dividiu. Garotas numa sala, meninos em outra.

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Essa situação se parece com o que muitas alunas enfrentam aqui no Brasil,  onde não é incomum que professores “peçam” que as meninas usem calças para que os meninos não se distraiam com suas pernas. Em países islâmicos, onde se impõe vestimentas e comportamentos femininos, há muito mais opressão para as meninas. Em nível menor, apesar de o Brasil ter um Estado laico, a fonte de repressão é a mesma – o patriarcado.

Mesmo assim, os valores liberais que sua família tinha fez de Marjane uma aluna rebelde, que criticava as novas normas impostas às mulheres e reivindicava seus direitos.

 

Mudança

Enquanto ainda morava no Irã, Marjane era a imagem da menina liberal, independente, que não tinha papas na língua ao criticar o Estado. Mas, à medida que a guerra foi piorando no país, os pais dela a mandaram para a Europa sozinha, ainda criança, para concluir seus estudos.

A imagem da mulher ocidental era estranha para Marjane, que desde os dez anos teve de lidar com as limitações impostas pelo Estado. As meninas da Áustria, país para onde foi mandada, tomavam pílulas contraceptivas, tinham relações sexuais com homens que nem sempre eram seus namorados, e costumavam fumar maconha quando se reuniam com amigos.

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A adaptação foi difícil para a protagonista, que começa a passar por um conflito interno. Marjane, quando ainda no Irã, se via como liberal. Mas no meio de outras mulheres liberais, ela passava a ser uma conservadora, que estranhava os costumes das europeias. Marjane teve de passar por situações que iam contra aquilo que foi criada para ser num grupo social que tinha leituras, vivências, costumes e hábitos completamente diferentes de tudo que ela havia visto até então e se tornar, de fato, uma menina europeia.

À medida que ela vai incorporando este estilo de vida ocidental, sua situação, que já estava delicada com a adaptação a um novo país, piorou. A fase da puberdade chegou, a aparência dela mudou e suas inseguranças e baixa autoestima tornaram sua vida ainda mais difícil.

Ela era diferente das europeias. Tinha traços persas, árabes, diferentes daquilo que os europeus estavam acostumados. Mas ela não queria ser diferente. Marjane queria pertencer a algum lugar. Deste modo, mesmo com seus esforços corajosos para se parecer com uma menina ocidental, ela ia cada vez mais perdendo sua identidade.

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Marjane não se sentia bem e não conseguia se adaptar integralmente. Era reconhecida como a mulher oriental submissa, atrasada, conservadora, que não  sabia viver como as europeias de cabelos louros e olhos azuis, que, por sua vez, tinham grande liberdade social, pessoal e sexual e que, durante as férias escolares, iam esquiar com a família. Sem mencionar, é claro, que as europeias com quem Marjane convivia tinham leituras aprofundadas de intelectuais como Mikhail Bakunin, Simone de Beauvoire e Jean-Paul Sartre, autores cujo quais ela nunca havia ouvido falar. Ela, que se reconhecia como uma menina liberal em seu país natal, se sentiu inferior ao notar que não tinha leituras de autores cujas ideologias eram liberais.

Portanto, sua situação – e sua visão de si, principalmente – vai se degradando até que ela se vê distanciada de seus conhecidos, passando suas noites acordada na rua e dormindo durante a manhã em trens. Mesmo com seus esforços para se adaptar, se encaixar e ser uma mulher ocidental, Marjane se frustra. Não consegue ser aquilo que deseja.

 

Volta para o Irã

A guerra no Irã vai diminuindo de intensidade e as condições de vida em seu país de origem vão lentamente melhorando até que Marjane decide voltar e encarar sua condição de mulher oriental. Ela sente falta do calor familiar – e talvez tenha se cansado de ignorar sua identidade e frustrar-se por isso.

Deprimida, a protagonista passa o fim de sua adolescência e início da vida adulta no Irã, mesmo tolerando suas restrições pessoais e sociais como mulher. Contudo, apesar das condições sociais limitantes, lá ela se descobre mais forte que imagina e passa a superar as dificuldades que passou durante seu tempo na Europa. Ela se fortalece não somente com seus esforços, mas pelo apoio imprescindível de seus amigos e familiares que a aceitam como a mulher que se tornou.

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No Irã, ela é aceita numa universidade onde, como artista, tem um pouco mais de liberdade expressão e pode exercer sua militância, mesmo que de maneira sutil. Deste modo, aos poucos ela vai assumindo sua identidade como mulher persa que sempre lutará por seus direitos. É neste ponto que Marjane torna-se uma feminista íntegra e independente, apesar de não se assumir oficialmente como uma.

 

Identidade

Se construindo aos poucos como mulher e artista, ela volta à Europa, onde passa boa parte de sua vida adulta. É lá que escreve esta obra de arte que merece ser lida por todos chamada “Persépolis”. É um livro que me fez refletir sobre a imagem que eu tinha construída sobre a mulher oriental, especialmente aquela que vive num país árabe sob um governo conservador xiita, como o Irã.

O Irã realmente se fechou do mundo com a Revolução Iraniana e se mantém desta maneira até hoje, indiscutivelmente. Os direitos sociais das mulheres são restringidos. Elas são objetificadas e obrigadas a seguir inúmeras normas sociais. Mas a reflexão sobre quem é a mulher oriental continua batendo na minha cabeça.

Temos uma visão completamente unilateral e eurocêntrica de liberdade. Na França, proibimos mulheres que usem o véu islâmico, apesar de ser uma escolha pessoal. Vemos a burca como um ato de submissão. Mas por vivemos em “liberdade”, a tendência é vermos povos orientais como pessoas que não possuem nosso grau de intelectualidade – nossas leituras aprofundadas, experiências e mentalidade – e que, portanto, não são tão livres quanto nós. O resultado disso é que achamos que exercemos nossa liberdade ao restringir a do outro.

A HQ me fez refletir sobre meu próprio eurocentrismo. A identidade da mulher ocidental é realmente tão livre quanto imaginamos? Afinal, todas sofremos os efeitos de sociedades patriarcais, apesar de em diferentes graus. O que constitui nossa própria identidade como mulheres de diferentes nacionalidades? Na maior parte do tempo, nos mantemos fixos num padrão de beleza que ignora a beleza oriental. Ficamos presos a uma construção social latente, à nossa própria ocidentalidade eurocêntrica. Com certeza Persépolis é uma porta aberta para desconstrução.

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