Com o último Hobbit se aproximando, e com toda a polêmica que envolve a personagem de Evangeline Lily, Tauriel, na nova trilogia, resolvi voltar a um texto que escrevi sobre Eowyn e Merry no curso de Roteiro, e ver por que essa personagem funciona tão bem dentro de mundo inteiro de personagens masculinos. Em dezembro, antes da estréia de Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos, coloco por aqui um texto sobre Tauriel e o que ela representa. 😉

Eu lembro de sentar no cinema para assistir ao primeiro Senhor dos Anéis, e lembro que, na saída, dois amigos que foram ao cinema comigo continuarem sentados – eles só sairia dali quando o filme acabasse de verdade. Essa sensação acompanhou todo mundo que foi no cinema por mais um ano. De muitas maneiras a trilogia de Peter Jackson causou uma revolução no modo como nós assistimos filmes, mas também me causou um estranhamento que persiste até hoje.

Todos os personagens centrais de Senhor dos Anéis são homens, e as mulheres retratadas no filme, apesar de serem importantes princesas, interesse romântico ou poderosa rainha elfa, estão alí para dar algo ao Herói de que ele precisa. Menos Eowyn (Miranda Otto), e por isso o arco desta personagem é tão importante para mim.

Eowyn é uma princesa que está apaixonada com o mito de Aragorn. Ela não ama Aragorn, ela ama aquilo que ele representa, como a maior parte das personagens de donzelas em perigo, aliás. A diferença crucial é que ela é uma mulher forte que, após ser rejeitada, decide marchar para a batalha junto com todos os outros homens. Ela não o faz por vaidade, ela não o faz por birra, mas porque se dá conta de que, assim como Merry e como todos os outros guerreiros, ela também faz parte da causa pela qual eles todos lutos.

Quando Eowyn diz que ela também pode lutar por aqueles que ama, ela não está falando de Aragorn, ela está falando de seu pai e de seu povo – Eowyn assume a primeira postura de uma rainha. É uma personagem feminina muito forte perante todos os outros guerreiros, abrindo caminho não apenas para si mesma, mas para Merry também.

Merry, que já esteve em outra batalha, é também um representante de um ser supostamente frágil que cresce dentro da batalha. No caso dele, é Eowyn que dá a oportunidade de lutar ao lado dos homens e fazer justiça perante o esforço de seus amigos. Merry e Eowyn são honrados como qualquer outro guerreiro.

A grande vitória da personagem no filme, do ponto de vista criativo, é criar um arco tão bonito e ao mesmo tempo eficiente. Eowyn começa como a princesa apaixonada, torna-se guerreira, a única capaz de de destruir aquele que nenhum homem poderia.

Fuck Yeah, Eowyn.

Há uma dicotomia quando falamos de personagens femininas fortes, elas ou são fortes do ponto de vista físico, ou são fortes por terem personalidade e tridimensionalidade bem estabelecidas. Encontrar uma personagem que junte essas duas interpretações é um tanto complexo – especialmente em filmes de Fantasia, onde somos princesas, fadas, elfas ou mesmo guerreiras. Mas Eowyn consegue.

Ela é uma personagem feminina forte em todos os aspectos. Ela é motivada, tem personalidade, mostra-se fisicamente forte, é corajosa e, ao enfrentar a batalha, é destemida. Eu nunca terminei de ler Senhor dos Anéis (é, eu sei, eu sei…), mas a Eowyn dos filmes é um exemplo de como um arco de personagem feminina pode ser construído em um espaço relativamente pequeno de tela.

Na época do lançamento do terceiro filme, escutei muita gente falar que por ser uma mulher e um Hobbit, os dois somavam um homem. Vômitos de raiva à parte, eu não acredito nisso. A aliança que une Eowyn e Merry é muito superior a essa matemática machista, e o momento em que os dois partem para luta, o arco dos dois personagens atingem um pico que poderia muito bem ser o fechamento deles. Merry saiu de um Hobbit engraçado e desligado para se tornar um guerreiro honrado, e Eowyn saiu da princesa apaixonada para também se tornar uma guerreira honrada.

O Senhor dos Anéis é sobre superar o mal, superar aquilo que acha que está além de qualquer outra criatura. Merry e Eowyn passam por esse caminho tortuoso e, assim como toda Terra Média, com a nova derrota de Sauron, eles alcançam o respeito e a liberdade que tanto queriam e mereciam.

The Lord of the Rings: The Return of the King (2003)

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