Ano passado, quando da época do lançamento de X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido, eu escrevi no começo da minha crítica sobre o filme o quanto eu estava dividida. Tinha acabado de sair acusações de que Bryan Singer talvez tivesse molestado um rapaz. Aquilo me dividiu bastante sobre assistir ou não ao filme, mas eu acabei assistindo mesmo assim.

Porque a gente tem essa facilidade em perdoar homens que são molestadores/espancadores?

As acusações contra Bryan Singer acabaram sendo retiradas, mas esse está longe de ser a primeira vez que um diretor de Hollywood é acusado de algo tão sério. Alguns deles são inclusive condenados pelos seus crimes, outros são fugitivos da justiça – e todo mundo acha lindo. Perdoa-se o gênio masculino, não importa qual foi o crime.

Sean Penn bateu, sequestrou e colocou a cabeça de Madonna dentro do forno na década de 80, hoje ele continua fazendo filmes de sucesso e recendo Oscars. Polansky é réu confesso do estupro de uma menina de 13 anos, vive como fugitivo na Europa e continua produzindo filmes todo ano sob o olhar admirador dos cinéfilos do mundo todo. Woody Allen foi acusado por sua filha de abuso, a grande maioria dos envolvidos no mundo do cinema prefere acreditar na versão do Diretor, que diz que Mia é louca e manipulou os filhos. Ninguém parece ver a relação entre esse caso, o casamento com a filha adotiva e seu personagem em Manhattan – mesmo a atriz que faz sua namorada adolescente no filme tenha contando sobre o comportamento inapropriado de Allen. Victor Salva, que abusou sexualmente e filmou o abuso de um menino de 12 anos de idade acaba de ganhar de presente um terceiro filme para sua agora trilogia Jeepers Creepers.

Aqui no Brasil isso também acontece. Kadu Moliterno e Netinho de Paula são agressores de suas companheiras, tudo foi noticiado pela mídia e logo depois um deles foi fazer Malhação (uma série com público adolescente), e o outro continuou a carreira de músico/apresentador.

Se você é homem, e especialmente se você é homem branco, abusar de criança e de mulher pode ser recompensador.

Algumas semanas atrás saiu uma matéria que falava sobre um jogador de Magic que foi banido pela fabricante do jogo por causa de seu histórico de estupro. Aos 19 anos ele estuprou uma colega de faculdade. O caso inteiro você pode ler aqui, mas depois de ter cumprido a pena ele recebeu uma bolsa de 30.000 libras para uma universidade prestigiada em Londres. Com o banimento a internet foi a loucura, fizeram um abaixo assinado para trazê-lo de volta, afinal, ele já havia pago por seu crime (leia-se ficou três meses em prisão semiaberta).

O que esses fãs de Magic, e o que os aficionados por esses diretores e atores incríveis parecem se recusar a ver são as vítimas. A vítima do jogador de Magic, a vítima de Polansky, a filha de Woody, a vítima de Victor Salva – TODAS ELAS – sem exceção vão passar o resto da vida revivendo essa história. Mesmo Madonna, sendo a diva pop que é, vai ter que reviver isso de tempos em tempos. Porque assim como eu estou hoje falando sobre isso, sempre vão existir outros veículos de comunicação que vão abordar o assunto (muitas vezes buscando apenas a polêmica). Fora o trauma do evento que elas vão levar para a vida toda.

Mas deus nos livre falar sobre o estupro do Polansky. Deus nos livre questionar a obra de Woody Allen. Sean Penn já foi até casado com outras mulheres! Victor Salva já pagou a dívida dele com a sociedade, porque não dar a ele uma outra chance?

Eu acredito que pessoas possam se redimir de seus erros. Eu acredito que elas possam se arrepender e se tornar pessoas melhores. Eu realmente acredito.

Mas a gente vive numa realidade em que Anne Hathaway se tornou alvo de ódio generalizado porque SE EMOCIONOU DEMAIS quando recebeu o Oscar por Os Miseráveis (2011). Onde Shonda Rhimes, dona de uma das carreiras como produtora de televisão de maior sucesso atualmente, é chamada de Angry Black Woman exatamente por ser uma mulher negra de sucesso e sem medo de dar sua opinião. Angelina Jolie foi o pivô da separação de Jennifer Aniston e Brad Pitt, ela, que nem no relacionamento estava, foi a culpada pelo fim do casamento – não o Brad Pitt. Amal Clooney, uma das advogadas mais importantes DO MUNDO, tem que escutar que ela consegue casos assim por ser casada com George Clooney.

Essa é a nossa realidade, uma realidade de falsa simetria onde a mulher é execrada por ser feliz e ter opinião, onde a vítima é silenciada e onde o perdão ao gênio masculino é a regra.

É impossível não ver o padrão. É impossível não ver como estamos mais dispostos a perdoar um homem que estuprou do que uma mulher que se emocionou por ter alcançado um sonho.

“Ah! Mas é preciso separar a obra do autor, a obra dele em nada reflete ele como pessoa. “ Oi? Desde quando arte não é algo subjetivo? Sim, eu posso escrever sobre personagens que não tem nada a ver comigo, eu posso criar um universo completamente diferente da minha realidade. MAS, quando alguém opta por criticar a obra de um cara acusado de pedofilia, de estupro de menores, de assediar e de espancador mulheres e basear a sua crítica nesse histórico ninguém pode dizer que ela está errada.

Quero deixar bem explicado que você pode continuar assistindo os filmes de todos esses caras, assim como eu posso optar por não assistir, por criticar e ninguém tem nada a ver com isso.

Eu sei que esse é um assunto polêmico, mas se a gente não discute esse tipo de assunto então continuamos para sempre nessa repetição de padrão. Chega de passar a mão na cabeça, chega de panos quentes e chega de tapinhas nas costas. Chega de escolha o lado do agressor.

PS: Leia este artigo e me diga se, no lugar de Hathaway fosse Tom Hardy, se ele teria sido escrito dessa maneira? Tudo isso seria atribuído ao fato dele ser descolado e estranho.

  • Jamal Singh

    Falando única e exclusivamente sobre o Victor Salva, dos quatro citados o único que não é heterossexual. Salva conseguiu dinheiro para fazer o terceiro olhos famintos, um terror que ele é o vilão (um monstro obcecado por garotos? Melhor paralelo impossível). A pergunta que não quer calar é: não foi o suficiente ele ter ido para a cadeia e ser registrado como criminoso sexual (coisa que lá nos EUA desvaloriza até imovel). Não assistir um filme dele, que dos citados da matéria, foi um dos poucos punidos pelo que fez, é um juízo de valor. Por isso bateu a curiosidade de perguntar a opinião pessoal da autora da matéria: era para ele ser proibido de filmar, trabalhar com arte? Para ele ser morto? Para avisar em todos os filmes dele isso, além do que ele já passa por um crime que fez há quase trinta anos?

    • Rebeca Puig

      Oi Jamal!
      Primeiro: eu não entendi a necessidade de você citar a sexualidade do Victor Salva, se a sua intenção foi mostrar como um pequeno desvio do padrão Homem Branco HEtero-CIs já faz uma pessoa ser mais punida do que a outra, faz sentido. Se não, é um comentário sem necessidade.
      Sobre a sua frase “que lá nos EUA desvaloriza até imóvel” é de uma falta de empatia imensa. Foda-se o imóvel, a questão que eu levanto no texto são as vítimas desses caras. Uma casa perder valor ou não é o menor dos problemas quando uma criança foi sexualmente abusada.
      Não sei da onde você tirou que eu quero que matem o Victor Salva, mas ok. Não, não proponha pena de morte. Mas acho que é de uma falsa simetria incrível que um cara passe uns anos na cadeia, saia e depois ganhe de presente uma agora trilogia de filmes de terror enquanto a vítima do crime que ele cometeu vai passar o resto da vida tendo que conviver com a lembrança do ato, do fuzuê que a mídia causou e tendo que lidar com o trauma que esse tipo de crime deixa. Há, nesse conceito de justiça, uma injustiça muito grande. Pq enquanto o estuprador ganha a vida de volta, a vítima fica para sempre traumatizada. A vida que ela podia ter tido até aquele dia tomou um rumo diferente, um rumo marcado pela violência. A vítima de Victor Salva era um ator mirim, eu não vejo ele ganhando a oportunidade de reconstruir a vida da mesma maneira que Salva ganhou, muito menos com o apoio de um diretor de peso como o Coppola. Não digo que é pra ninguém parar de trabalhar, apenas estou mostrando que sempre se dá uma oportunidade ao homem branco de reconstruir a sua vida, mesmo depois de um crime hediondo. A nossa sociedade tende sempre a ficar do lado do agressor e questionar a vítima em todo segundo.

      • jamal Singh

        Oi Rebeca, falei da sexualidaee do salva por que diferente dessa “nata” de hollywood aí, ele é abertamente homossexual, o que realmente fecha algumas portas tanto na indústria do estrelato como na vida, assim como você disse, a punição é vista diferentemente.

        sobre a minha frase “que lá nos EUA desvaloriza até imóvel” não é falta de empatia. é porque é notório que se quando um criminoso sexual (e em alguns estados criminosos sexual é quem tirou a roupa em público) é solto, ele fica num cadastro que impossibilita de ele morar decentemente o resto da vida (independente de ser um estuprador ou uma mulher que tirou a camisa em público). é válido para evitar que crianças e mulheres morarem perto dele se é um pedófilo/estuprador. essa frase é uma giria usada comummente em seriados televisivos. Não tirei que você queria que o victor salva morrese. eu te fiz uma pergunta. o que você acharia que devia ser feito num caso desse, pergunta que considero válida afinal o seu texto é sobre esses delitos e sua falta de pena. eu por exemplo acho que foi pouco tem: ele cumpriu 15 meses de uma pena de três anos, e até onde eu saiba só tem a ficha suja, não necessita mais de psiquiatra, que acredito devia ter aconselhamento para toda a vida. Concordo com o que você escreveu sobre a sociedade ficar do lado do agressor, vejo isso todos os dias. Perguntei sobre o boicote porque politicamente, é válido, como a familia de Nathan Forrest Winters o fez durante as filmagens de energia Pura, o filme da disney que o Salva fez depois que saiu da cadeia. Embora seja impossível, ainda mais nos dias de hoje, conseguir impedir alguém de fazer um filme. O NATHAN ABANDONOU O CINEMA DEPOIS DO ESTUPRO, E COMO VOCÊ DISSE NÃO TEVE METADE DO APOIO DO SALVA, MESMO ANTERIORMENTE TENDO MOSTRADO SER UM BOM ATOR EM OUTRO FILME DE TERROR. O salva está filmando, como você disse, bem apoiado.

  • Lucas

    Acho interessante o problema ético que você aponta no seu artigo. No entanto, será que a apreciação da obra de um artista realmente significa apoiar quaisquer atos ilícitos que ele tenha cometido? “Sobre meninos e lobos” e “A rosa púrpura do Cairo” (entre outros) não deixam de ser ótimos filmes, a despeito dos crimes de Sean Penn e Allen. Acho que precisa haver uma relativa diferenciação entre a relação que se tem com a obra e com seu autor, seja ou não de arte. Heidegger, que era nazista, não deixou de ser um dos filósofos mais influentes do século passado, nem ninguém tem de parar de ler Virgínia Woolf por que ela manifestou, durante um período, certo antissemitismo. De todo modo, belo texto!

    • Rebeca Puig

      “Acho que precisa haver uma relativa diferenciação entre a relação que se tem com a obra e com seu autor, seja ou não de arte. ” Acho que isso é uma questão pessoal, Lucas.
      Particularmente eu não tenho essa facilidade. Principalmente porque eu não consigo não ver esse padrão da mídia que absolve um estuprador, mas demoniza uma mulher por ela ser eficiente e outra por ser feliz demais. Há uma falsa simetria muito grande.

      • Lucas

        Rebeca, só quero deixar claro que concordo com você a respeito dessa dessimetria de julgamento com relação a homens e mulheres. Quero que Polanski, e todos os outros, paguem por seus crimes, afinal. Porém, a questão que eu coloquei não é essa. Recusar a obra de um criminoso, ou de um imoral, é uma escolha possível, e tem de ser respeitada; mas acho difícil a um(a) estudioso(a) de filosofia, por exemplo, pensar a produção do século XX sem Heidegger. O mesmo com relação a Allen, pensando no cinema norte-americano, ou com relação a Baudelaire, como já se fez no passado, porque era um homem “degenerado”. Não se trata de desculpar o autor, esta foi minha colocação, nem de se colocar de forma acrítica com relação a ele e sua obra. Mas também é muito problemático, pra não dizer perigoso, ignorá-los. Abraço!

  • Camila

    Olá Rebeca,

    Eu concordo com vc que esquecemos dos crimes dos homens muito rápidos.
    Mesmo eu que policio muitas destas coisas depois de um tempo esqueço. Por exemplo, quem era o cantor que bateu na Rhianna? Que ainda foi super maltratada pela crítica, mesmo com olho roxo? Eu não acompanho a música dele, mas mesmo assim, com uma coisa dessa era pra gente ao menos lembrar do nome, não é?

    Polansky eu já parei de acompanhar mesmo, Sean Penn eu já tinha esquecido.

    Que cultura forçada goela abaixo é essa, não é?

    Essa época que escreveram sobre a Shonda eu fui ler a matéria achando que ela tinha aprontado todas, e não tinha nada. Nem entendi o motivo da matéria direito. Quero até escrever sobre ela.

  • Anonimo

    É muito errado falar que o caso do Polansky deve ser ANALISADO separadamente? por tudo o que aconteceu, de tudo que a garota falou e toda a situação do fato?
    De resto concordo com tudo, realmente acredito que existe um julgamento BIZARRAMENTE diferente sobre as mulheres que vai ser muito difícil de ser mudado.
    E diferente do muitos disseram aí, a vida pessoal influencia na arte da pessoa, analisar separadamente nem sempre é POSSÍVEL.
    ADeus, parabém pela publicação.

    • Rebeca Puig

      Por que ele deveria ser analisado separadamente? Ele cometeu o crime, é réu confesso e, ao invés de ficar e cumprir a pena pelo seu crime, fugiu. Eu sei que a menina, muitos anos depois, disse que o perdoava. Mas ela tinha 13 anos, e ele mais de 40. E eu sei tb que a esposa dele foi morta no massacre de Charles Manson, mas nada disso diminui o crime que ele cometeu, e pelo qual saiu impune.

      • ANONIMO

        não rebeca, não digo pelo o que aconteceu com a mulher dele, mas pela circunstância que o crime ocorreu, vai ser foda explicar sem parecer que estou defendendo o cara, mas vou tentar.
        Ele esta numa festa na casa do jack nicholson, todos mais velhos. Polanski usando drogas e abalado pelo assassinato da esposa e lá estava a menina que parecia muito mais velha foi atrás deu em cima dele (não estou querendo de maneira falar que estrupo ou pedofilia é culpa da vitima, pqp jamais, mas nesse caso especifico foi isso que aconteceu), e depois que ele percebeu se desculpou muito, mas a família da vítima (e alguns advogados) viram uma oportunidade gigantescas de ganhar grana do Polansky e tornaram tudo público.
        Deveria ir a julgamento mesmo assim? Sim, mas ele tbm tem problema com os EUA, sobre questão politica, muitos diretores imigrantes (e alguns americanos muitos liberais ou comunistas) que trabalham nos EUa numa época eram perseguidos pelo FBI, aí está um motivo a mais para fugir, se ele fosse pego por pedofilia, iria se fuder muito por outros motivos.
        (E tem também o esquema cultural do leste europeu sobre idade de casamento e tals, mas isso seria pra outra discução, mas tensa hahaha)
        Então foi mas ou menos por isso que eu falei, espero que tenha entendido

        • Rebeca Puig

          Gente, tem tanta coisa errada no seu discurso que eu nem sei por onde começar. Primeiro: Ela tinha 13 anos, ele 44. Nada justifica. Tem descrição de tudo que aconteceu na internet - não foi consensual.
          Além disso, Polanski foi ATE A CASA DA MAE DELA pedir permissão para fotografar a garota. Você não precisa de permissão de pais para fotografar adultos. Essa história de “ela se jogou, foi atrás dela” não existe, cara. Para de tentar inocentar o Polanski jogando a culpa na vítima.
          “Esquema cultural do leste Europeu” - Isso é tão absurdo que eu não vou nem me dar o trabalho de refutar.
          É muito bonito dizer que ele foi perseguido pela justiça, o caso pode até ter sido mal conduzido, mas ainda sim ele fugiu. Ele ficou 45 dias preso e, quando soube que ia passar mais tempo na cadeira, fugiu. 45 dias por ter estuprado uma menina de 13 anos.
          Ele merece se ferrar sim, ele estuprou uma menor e ao invés de encarar o que aconteceu, fugiu.

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