Numa conversa sobre cinema com um dos meus melhores amigos, perguntei se Boyhood era legal. Ele disse que era, mas que achava que eu não ia gostar. Perguntei o porque e ele me disse “porque ele é inteiro pela perspectiva do garoto”.

A resposta que eu dei para o meu amigo, que é muito querido, aliás, foi “Eu não tenho nada contra filmes com perspectiva masculina – o meu problema é que eles são a grande maioria dos filmes”.

Quando a gente escreve sobre feminismo, e quando a gente fala sobre feminismo (ou qualquer outro tema de cunho social) dentro de um nicho – no meu caso qualquer coisa relacionada à cultura pop/nerd – é comum que nos entendam errado. Talvez porque seja difícil perceber que as reclamações e as exigências que a gente faz não são nada além do justo, talvez porque as nossas palavras se atrapalhem e não deixem transparecer o que a gente realmente quer falar. Então esse texto, hoje, é para isso.

Deixar claro que eu não sou contra filmes com protagonismo masculino, eu sou contra a predominância deles. Boyhood foi um dos meus filmes preferidos de 2014, e as personagens femininas nele – principalmente a mãe – são muito bem construídas. É uma visão interessante do modo como o garoto vê o mundo ao seu redor.

Mas, se nós tivéssemos um filme como Boyhood com uma protagonista feminina, a chance dele ser sobre namorados, romance e brigas entre amigas por causa de namorados seria imensa. Assim como a possibilidade dele ser dirigido por um homem também. Talvez falasse da sexualidade da menina, mas de uma maneira ou negativa ou estereotipada. É contra esse tipo de coisa que eu reclamo.

Nesse domingo acontece a cerimônia do Globo de Ouro, prêmio que atinge televisão e cinema. Olhando a lista de indicados é possível ver uma discrepância imensa na representatividade feminina e masculina – principalmente no cinema.

Ache o padrão.

Temos um físico, um matemátigo gay, um político, um adolescente e três lutadores como protagonistas dos filmes que concorrem ao Globo de Ouro de Melhor Filme. É uma variedade grande de personalidades,a a falha está na representação étnica. Na contramão temos uma mulher como co-protagonista. Achou os erros?

Dos cinco indicados à Melhor Filme de Drama, apenas um deles foi dirigido por uma mulher, Ava Duvarney por Selma, e apenas um deles é protagonizado por uma. A Teoria de Tudo é baseado na memória da primeira esposa do físico Stephen Hawking, e Felicity Jones foi indicada à Melhor Atriz. Na categoria de Melhor Filme de Comédia ou Música, apenas Caminhos da Florista possui protagonistas femininas. E isso é apenas focando em protagonistas femininas e diretoras.

Nas duas categorias apenas três filmes, de dez, saem do padrão branco-heterosexual. Selma, sobre a caminhada de Martin Luther King, The Imitation Game, sobre o cientista britânico Alan Turing e Pride, sobre um marco para o movimento gay e operário britânico. Nas indicações para melhor ator e atriz apenas Quvenzhané Wallis (Anne) e David Oyelowo (Selma), estão indicados.

Na televisão, séries como Orange is The New Black, The Good Wife, Transparent, Game of Thrones e Downton Abbey, e filmes/mini-séries Fargo e The Normal Heart, que possuem vasta representatividade fora do padrão branco-heterosexual-cis, estão indicadas. Há um gap imenso entre a representatividade na TV e no Cinema.

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Eu sei que premiações como o Globo de Ouro e o Oscar não são um parâmetro de qualidade cinematográfica, mas elas não podem ser ignoradas como termômetro daquilo que chega em grande maioria às salas de cinema.

Na lista de lançamentos aqui no Brasil para 2015, entre filmes internacionais e nacionais, já existem cento e cinquenta títulos com datas previstas. Destes, apenas vinte e sete são protagonizados exclusivamente por mulheres, noventa e dois são protagonizados por homens e trinta um são ou filmes de grupo (como Vingadores e Quarteto-Fantástico) ou filmes que eu não consegui definir quem é o protagonista. Não consegui determinar com precisão quantos e quantas dessas protagonistas são negras ou de outra etnia mas, pelo que consegui precisar, apenas um protagonista, na autobiografia do músico James Brown, é negro.

Nós somos muitas.

Nós somos muitas.

Desses trinta e um filmes de grupos, ou que não consegui identificar exatamente o protagonista, muitos deles são de casal. Mulheres dividem o protagonismo com homens apenas quando o assunto é relacionamento. Quando é uma equipe de super-heróis, ela é a única. Vários dos filmes protagonizados por homens não tem absolutamente nada a ver com família, com relacionamentos, enquanto diversos filmes protagonizados por mulheres partem exatamente dessa premissa.

Ou seja, quando eu reclamo, quando eu escrevo, quando eu exijo, quando eu questiono o cinema, e mesmo a televisão, pelo excesso de protagonistas masculinos não tem nada a ver com gostar ou não deles. Eu cresci assistindo filmes em que os protagonistas eram homens, eu posso me identificar com eles também. Eu só não quero que eles sejam a minha única opção.

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Eu só não quero que as histórias femininas sejam única e exclusivamente sobre romance. Eu quero que mulheres também sejam representadas como duplas fodásticas de cientistas que estudam Kaijus, duplas de policiais sérias e duronas que encaram a violência da rua, políciais engraçadas e divertidas mas que terminam o trabalho, mulheres e mães que precisam lutar para sustentar aos filhos em meio ao mundo violento, em meio a guerra, em meio a pobreza ou em meio a classe média. Quero assassinas de aluguel, quero psicopatas e quero amantes e filhas. Eu quero todo tipo de representação, para todo tipo de mulher.

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Nós somos diversas.

O mesmo eu desejo para os personagens masculinos. Diversidade de personalidades, gênero, sexualidade e etnia é a chave para a manutenção do cinema, para que as gerações futuras continuem interessadas naquilo que a gente produz.

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