Filme romântico, principalmente as comédias, é uma tortura para qualquer feminista. Além de reproduções constantes de machismo, gordofobia, transfobia e homofobia, os roteiros costumam cair sempre nos mesmos clichês de “correr pelo aeroporto antes que o avião dele/dela parta”, “o mal-entendido” onde um personagem fala uma coisa, a outra pessoa entende algo completamente diferente e ficam os dois na sofrência, ou a mina do filme é uma desastrada que bate a testa em todas as portas de vidro do mundo, etc;

 

posters

nem com os posters galera consegue ser original

Para mim a pior de todas é aquela constante martelada de que a mulherada está desesperada pra achar “o cara”. Desesperada justamente porque parece que não existe vida fora de um relacionamento romântico. Como tudo começa pra elas depois de homem aparecer. Pra mim, um dos piores é Enquanto você dormia, de 1995, com a Sandra Bullock. O sonho da mulher é conhecer a Itália. Ela é saudável, jovem, e seu emprego pode ser chato mas ela é independente financeiramente. O mundo é uma vastidão de possibilidades pra essa mina. Mas vejam vocês, ela era solitária. E né, mulher solitária não consegue fazer absolutamente nada, só ficar em casa vendo TV, de acordo com o filme. Vejam que a personagem de Sandra Bullock não tinha depressão clínica nem nada. Resumo da história: acontecimentos externos fazem com que ela conheça o galã, o galã se apaixona por ela, eles casam e esse ser incrível que é o homem, leva ela pra Itália pra lua-de-mel. Se esse filme não ensina que nada vai acontecer na sua vida até o o homem dos seus sonhos aparecer, eu realmente não sei que lição seria. Pra que você mesma juntar uma graninha, organizar a viagem e ir sozinha pro país dos seus sonhos se você pode esperar sentada por um homem que apareça e faça isso tudo ~por amor~?

praticamente um manual de como NÃO viver a vida

praticamente um manual de como NÃO viver a vida

E é aí que entra um filme que só sobe e sobe no meu conceito: Para sempre Cinderela, de 1998. Não é surpresa nenhuma que uma das roteiristas desse filme seja Susannah Grant, a mesma de Erin Brockovich: uma mulher de talento.

BTW, preciso avisar de spoilers de um filme baseado em um conto de fadas e que é de 1998?

Para sempre Cinderela tem a premissa básica de sempre. O pai de uma jovem falece, deixando-a para ser criada pela madrasta, juntamente com suas duas meias-irmãs. Também tem baile, uma “fada-madrinha”, sapatinho de cristal, príncipe, mas o filme é muito mais do que isso.

cinderella

Badass

Primeiro, Danielle, a Cinderela. Danielle é sensível, inteligente, com muita personalidade e fortes opiniões sociais e políticas. Tem paixão pela leitura e um verdadeiro carinho pelos serviçais que a criaram. É isso que a faz se fantasiar-se de membro da corte da França do século XVI. Ela deseja resgatar Maurice, o serviçal que foi vendido ao Rei por sua madrasta para saldar dívidas. As motivações de Danielle não são só nobres, elas também revelam as convicções éticas inquebráveis da personagem. E é assim que Danielle conhece o príncipe Henry..

Henry já possui preocupações muito diferentes das de Danielle. Prometido para a princesa espanhola, ele está angustiando diante de uma vida sem amor verdadeiro. Leonardo daVinci está nessa história, como artista visitante da corte, e os dois tem conversas sobre almas-gêmeas e destino. A troca de papéis de gênero é notável e extremamente divertida.

Quero um amor maior, amooor maior que euuu

Quero um amor maior, amooor maior que euuu

As trocas entre Henry e Danielle durante a trama parecem absolutamente reais, sem clichês. Eles conversam como qualquer casal que está se conhecendo conversaria, e isso me faz me lembrar como não há nada de errado em se apaixonar. As histórias sobre paixão é que costumam ser contadas errado.

E não só o filme passa com folga no Teste Bechdel, como a única briga entre Danielle e sua desagradável meia-irmã nem tem o princípe como foco. A rivalidade entre mulheres não é um interesse de Danielle. Ela até se dá bem com a outra meia-irmã, que se mostra muito dividida entre a mãe e Danielle. Todos os conflitos de Danielle com as outras mulheres do filme são sobre inclusão, abandono e amor. Ela só queria fazer parte da família (chuif). Danielle nunca conheceu a mãe, e lutou a vida inteira para ser amada pela madastra, que a rejeita constantemente.  Não que Danielle baixasse a cabeça e simplesmente aceitasse tal tratamento. Suas preocupações também eram em manter a propriedade de seu pai e o bem-estar dos serviçais.

Anjelica Houston maravilhosa no papel

Anjelica Houston maravilhosa no papel

E o filme se recusa a seguir clichês até o final. Quando Danielle, com a ajuda da fada madrinha de toda Renascença, quero dizer, Leonardo DaVinci, finalmente consegue chegar ao baile, Henry dá um jeito de estragar tudo, rejeitando-a por ela  não ser de nascimento nobre. Na frente de todo mundo. Em parte, eu fico muito dividida, porque não sei se esse tratamento é perdoável o suficiente para casar com o cara depois. Claro que ele pede desculpas, mas pô.

E claro que temos uma cena de resgate de um calabouço. Danielle é vendida a um nobre nojento e tarado cujo nome é irrelevante. Henry corre ao seu socorro, só para encontrá-la saindo do castelo, após ameaçar o nobre tarado de morte com um punhal e uma espada. Nem de salvação essa mina precisa, é maravilhoso demais.

E então os dois se casam. O final tem toda a pompa do “felizes e ricos para sempre” mas o importante é o respeito e admiração mútua que o casal apresenta. Casamento nunca foi o objetivo de Danielle. Ela só queria ser feliz e cuidar de si. E amor foi a consequência.

Tá aí um filme que eu não vou ter nenhum medo de mostrar pras minhas filhas um dia, pois Danielle é uma ótima princesa para se admirar. 

Ever-After-A-Cinderella-Story-DI

Recomendadíssimo.

 

Adendo: Princesa espanhola e seu choro escandaloso dos céus. Minha diva <3

 

 

  • Finalmente entendi o que tinha de diferente nesse filme e porque eu gostava tanto. Obrigada!

    • renata alvetti

      Hehehe, de nada! Fico muito feliz de saber!

  • Juliana

    EU AMO ESSE FILME! hueuhehue Não tinha me dado conta de que tinha mensagens legais =)

  • Eu AMO esse filme! AMO!

    É daqueles em que eu colocava como barulho de fundo no lugar de música, sério. Sempre achei a Danielle a “princesa” perfeita, pois ela discute política, lê em profusão e ainda aguenta as maldades da madrasta. Acho muito interessante essa inversão de papéis, especialmente quanto ela salva o príncipe dos ciganos! Aquela cena é hilária, mas muito significativa, pois ela sabia que ele poderia morrer ali e começa a carregá-lo nas costas. Eu chorei de rir na primeira vez que assisti.

    Queria que existissem mais filmes como esse. Para Sempre Cinderella mostra que é possível fazer filmes românticos sem cair nos velhos clichês.

    ❤️

  • eLAINE P.

    Adoro Para Sempre Cinderela. Cheguei a escrever algo sobre esse filme quando vi a adaptação do Kenneth Branagh, que considero horrível. Achei incrível que um filme de 1998 soasse muito mais atual do que um que foi lançado este ano.

  • Camila

    Vi esse filme milhares de vezes quando era criança e adorava. Obrigada por me fazer ver a história por esse viés e fazer eu adorar ainda mais esse filme

    • renata alvetti

      Hehehe, de nada! Foi um prazer escrever sobre esse filme =]

  • Raquel

    Eu sempre amei esse filme, mas vc esqueceu de mencionar a cena que ela salva o príncipe dos saqueadores na floresta, que eles deixam ela ir embora com o que conseguisse carregar e ela sai carregando o henri.

    • renata alvetti

      Esqueci não fia, eu pulei essa parte, queria me focar em outras cenas.

  • Drika

    nuoooossa! eu amo esse filme absurdamente por todos esses motivos!
    por perceber que ela se vira sozinha. mas, de fato, nem tinha me dado conta da maravilhosidade! muito grata por esse texto!

  • EU AMO ESSE FILME DEMAIS!!!!!!!!!!!!!!! E nem tem o que comentar o que mais ele tem de positivo, por que o post já tem tudo. adoro que o amor deles é algo gradual, adoro que ela tenha uma moral tão forte e direita, adoro a angelica houston fazendo qualquer coisa, adoro quando o pai dela morre (é uma cena em que você vê que eles eram unidos de verdade e seriam inseparáveis).
    e eu fico bolada de como conseguiram fazer uma versão de 2015 ser pior que essa versão e a de 1950 (pq a cinderella era, obviamente, uma mocinha que queria muita festa em 1950, mas uuuops, ela achou um príncipe. tá bom, mas ela queria mesmo a festa).

  • Rafaela Lopes

    Esse é um dos meus filmes favoritos desde criança, eu sempre gostei de princesas, mas como era uma criança feminista, as minhas favoritas sempre foram Mulan, Esmeralda, Jasmine, e essa Cinderela (ainda me lembro de dizer aos convidados do meu aniversário temático de 11 anos que eu era a Cinderela de Para Sempre Cinderela, e não a da Disney hsuahsuahs). Apesar de tudo só fui entender porque gostava mais dessas princesas que das outras na adolescência. Porque elas se diferiam das princesas que precisavam ser salvas. <3 Ah, a mana ali em cima falou da cena que ela salva o príncipe, é uma das minhas cenas favoritas.

  • Luiz Fernando

    Eu simplesmente amo esse filme!!
    Eu adoro a cena em ke ela e o principe são assaltados por ciganos e ela vence uma aposta em ke ganha a liberdade e o direito de levar tudo oke puder carregar…
    Ela simplesmente pega o principe e joga sobre seus ombros e sai caminhando!!
    Ja deixei de sair de casa só pra assitir novamente.

  • Pingback: 52 WEEKS – 7/52 – dreams()

  • SikaC.

    Ah, tbm amo esse filme, fez a minha infância mais feliz.
    Parece que a cena favorita da maioria é o resgate do príncipe, mas a minha é do casamento, puramente por canta a princesa espanhola chorando escandalosamente <3
    Sempre me identifiquei muito com a Danielle e com a irmã legal, eu sentia muita pena dela tbm, pq não é nada fácil se colocar contra a mãe.

  • Diana S.

    Sabe quando você lê um texto que explica exatamente aquilo que você pensava sobre algo, mas nunca tinha percebido? Então, foi o que ocorreu comigo quando li o seu texto Renata.
    Concordo com tudo que você colocou aí!

  • Luiza

    Eu nunca tinha entendido porque gostava tanto desse filme até hoje! Btw, sdds sessão da tarde. <3

  • Olá, ainda não vi esse filme mas depois de ver seu post sobre ele, certamente verei quando puder. Obrigada pela dica!

  • Jana

    Oi Renata, AMEI o seu texto. Esses dias parei para analisar os filmes da minha infância que eu adoro, e fiquei pensando justamente nesses dois: Enquanto você dormia e Para Sempre Cinderella.
    Claro que na época, eu não tinha esse entendimento do feminismo o suficiente para analisar os filmes como eu deveria mas essa princesa fodona de Cinderellla, com certeza passava nessa análise, e eu sorri aliviada pois não precisei destruir a ótima lembrança desse grande clássico romântico de minha infância, HAHAHA.

    Mas realmente precisamos falar de Enquanto você dormia, eu concordo com tudo o que você disse, mas posso defender um pouquinho só esse filme, para tentar salvar alguma coisa dele? 🙁
    O caso é que tive a oportunidade de revê-lo recentemente, e a primeira coisa que eu pensei quando sentei em frente a tv foi: “vamos ver se não é uma bela porcaria machista.” Enquanto você dormia não é o melhor filme representante do feminismo,e eu revi esse filme tantos anos depois, já pensando que me incomodava o negócio da Sandra ser muito solitária e etc, mas não é só a solidão romântica que ataca a história. Na trama Lucy acaba se apaixonando pela família do Jack também, ela acaba se enrolando em mentiras justamente por temer causar algum mal aquelas pessoas que acreditam que ela é noiva do cara em coma. E também acho a personagem com muita personalidade, inteligente, divertida e sarcástica e que o filme apresenta diálogos e situações em que reforça quem a Lucy é, não só uma apaixonada bobinha. Outra coisa legal é que ela era apaixonada de forma platônica por um cara que ela nunca tinha conhecido, mas depois se apaixona gradualmente de verdade por outro cara, que não é um mocinho babaca e desconfia da mentira dela por n motivos,

    Acho que um roteiro mais apurado, poderia mostrar que na verdade Lucy não realiza seus sonhos, não por falta de uma história amorosa, e sim porque gostaria de ser e fazer parte de uma família, e que a procrastinação dela tem mais a ver com o fato dela sentir que gostaria de ter alguém para dividir a vida, e não que necessariamente fosse com um homem.

    Enfim, foi o que eu tentei analisar da história para que ela não caísse nesse buraco que você comentou: a moça só é feliz com o cara. Hahah não me leve a mal, mas eu gosto tanto desse filme, que tive que analisá-lo com olhos atentos e bondosos! Mas confesso que se tivesse um filho ou filha, botava eles para assistir Para Sempre Cinderella, e deixava o Enquanto você dormia para mais tarde, quando a criticidade já tivesse sindo desenvolvida :p

  • A personagem tem meu mesmo nome,e eu adoro esse filme,minha mãe e eu assistíamos demais,é o nosso conto de fadas favorito,não a cinderela,mas a história de Danielle de Barbarack !

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