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Por mais que eu seja fã das HQs norte-americanas de super-heróis, de tempos em tempos preciso dar uma pausa na leitura delas. Ainda mais hoje em dia, com tantas adaptações sendo lançadas no cinema – que eu, geralmente, vejo logo na estréia.

É difícil me comportar apenas como leitor ou espectador, desligar a parte do meu cérebro de roteirista que trabalha com estruturas, personagens etc. São poucas as HQs e os filmes que me trazem uma experiência realmente surpreendente, que sufoca meu lado racional e analítico – e me força a pensar nessas coisas só depois. Geralmente, mesmo que eu esteja me divertindo pra caramba, estou antecipando coisas que logo mais vão acontecer, uma próxima virada (ou a ausência dela), ou calculando que daqui a tantos minutos ou páginas a história vai chegar no meio da trama e o que isso significa.

Essa minha visão, por mais bizarra que possa parecer, é relativamente normal. A maior parte das histórias que conhecemos seguem algumas determinadas estruturas, clichês e tudo mais, e quanto mais se estuda esse tipo de coisa, mais esse conhecimento passa a fazer parte do seu próprio entendimento de qualquer obra.

Por isso, o que me faz parar de tempos em tempos minha leitura de HQs de super-heróis não é necessariamente um cansaço. Mas sim uma noção muito forte da repetição dos mesmos temas, estruturas e arquétipos – e a necessidade natural que sentimos de nos aventurar por outras paragens, descobrir novas maneiras de contar histórias.

Enfim, todo esse preâmbulo pra explicar por que, afinal, decidi sentar e ler Pretty Deadly, que está sendo lançada pela Image Comics.

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Fazia um tempo que estava ouvindo falar muito bem do trabalho da escritora Kelly Sue Deconnick. A fase atual da Capitã Marvel, escrita por ela, está sendo bem elogiada. Mas Pretty Deadly também anda chamando bastante atenção (Kelly Sue foi indicada ao Prêmio Eisner pelos roteiros) – e no meio de uma das minhas pausas de super-heróis, encontrar uma HQ que mistura feminismo, faroeste, simbologia maluca e violência gráfica era pedir pra viciar mesmo.

Além disso, a equipe criativa de Pretty Deadly conta com a desenhista Emma Rios (que também é a capista), a colorista Jordie Bellaire e o letrista Clayton Cowles. Ou seja, é uma HQ que vem fazendo sucesso de público e crítica, cuja equipe criativa só tem um homem – o que, infelizmente, ainda é a exceção da exceção no mercado norte-americano. Mais um ponto muito positivo, pra incentivar todo mundo a ler agora mesmo.

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A primeira coisa que me chamou atenção, logo nas primeiras páginas, foi o jeito como a história é narrada. Sem entregar muito, até porque eu teria dificuldades de resumir a trama sem estragá-la, acompanhamos a história através das palavras de uma borboleta, que está narrando os acontecimentos para um coelho morto. A partir daí, encontramos um universo de faroeste, ordenado por uma mistura de mitologia e magia, que aos poucos vai se revelando.

O clima e o tom da HQ me lembraram alguns arcos d’Os Invisíveis do Grant Morrison, Sandman do Neil Gaiman – enfim, há um clima meio Vertigo, mas que não se deixa levar pelo pessimismo dark que tantos quadrinhos com essas influências têm.

E como outros quadrinhos meio Vertigo, há em Pretty Deadly uma releitura do gênero da história. Mais do que seguir os elementos clássicos do faroeste, a HQ se volta para a gênese de um universo situado no faroeste, mas cuja mitologia principal não é aquela da Conquista do Oeste, do heroísmo do homem branco desbravador contra o índio selvagem – John Wayne, aqui, nunca seria um herói, muito menos um exemplo. É muito clara a evocação da voz feminina, que geralmente é silenciada nas histórias desse gênero, e a maneira como Pretty Deadly retrata questões como abuso, violência contra as mulheres etc é bem interessante.

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Os desenhos da Emma Rios são espetaculares. Fazia tempo que eu não abria edições cujo arte e, principalmente, a disposição dos elementos na página são tão fluídos, narram tão bem e casam tanto com a história. Seria impossível imaginar Pretty Deadly com outro traço.

Algo muito legal do olhar da Emma Rios é o jeito como ela retrata os corpos e as expressões das pessoas. Mesmo a nudez de uma prostituta, que seria algo tão lugar-comum em tantas revistas por aí, é de uma beleza e sensibilidade marcantes. A forma como a HQ mostra a sensualidade deveria ser estudado por alguns quadrinistas eróticos famosos.

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As cores também estão muito bem trabalhadas. O clima que a palheta Jordie Bellaire evoca é uma mistura de clássicos como Meu Ódio Será Tua Herança (tem uma cena em específico que é uma citação à sequência inicial deste filme), as cores Technicolor de filmes como Rastros de Ódio e aquele clima sobrenatural além da realidade que os quadrinhos do Grant Morrison pra Vertigo adoram ilustrar.

O primeiro arco da revista já terminou, foram cinco edições. E já existe a promessa de que a série vai continuar. O que é animal, porque eu estou morrendo pra saber o que vai acontecer com Ginny, a filha da Morte, e sua (talvez, depende) meia-irmã Sissy, a filha do sangue, da dor e da violência.

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É, acho que deu pra sacar que Pretty Deadly é épico pra caramba. E imperdível.

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