Durante o primeiro fim de semana de Maio aconteceu o Encontro Lady’s Comics em São Paulo. O evento é encabeçado pelas meninas do Lady’s Comics, foi sediado e co-organizado pela Quanta Academia de Artes. O encontro, que está na sua terceira edição e primeira na capital paulista, trouxe nomes do quadrinho nacional e latino-americano para falar sobre todos os temas que envolvem a produção de quadrinhos, do roteiro até o jornalismo.

O Lady’s foi um encontro com oportunidades incríveis de aprendizado e aprofundamento, de entrar em contato com temas que nem sempre são abordados em eventos de quadrinhos e de se conectar com profissionais excelentes históricos diferentes. Foi inspirador ver todas aquelas mulheres palestrando e dividindo experiências, ver os futuros profissionais do quadrinho nacional, tanto homens quanto mulheres, participando do evento.

Infelizmente, muitos quadrinistas já reconhecidos que moram em São Paulo não compareceram e assim, não só refletindo o machismo inerente dentro do meio, mas também perdendo a oportunidade de melhorar os seus próprios trabalhos.

O que não falta no quadrinho nacional é a representação feminina reduzida à objeto e hipersexualização, a figura feminina é vítima constante do machismo e da misoginia, seja em quadrinhos de sci-fi ou fantasia, seja em quadrinhos que buscam representar a realidade (uma realidade geralmente masculina, heterossexual e branca, diga-se de passagem). Charges, tiras, coleções ou graphic novels – homens quadrinistas brasileiros adoram reduzir suas personagens femininas às suas fantasias sexuais pubescentes, mesmo que eles mesmos não se dêem conta disso.

Então, quando um evento como o Lady’s acontece, e eu vejo na programação palestras como a da incrível LoveLove6, “Desconstruindo o olhar masculino”, e a da Gabriela Borges, “A representação da mulher e os discursos de gênero”, eu fico desapontada, mas nem um pouco surpresa ao não ver esses quadrinistas nas cadeiras. Tirando os quadrinistas que estavam na equipe da Quanta, apenas dois ou três passaram por lá. Eles não comparecem provavelmente porque  acreditam que são tão superiores que não há nada para aprender, ou porque continuam achando que desenhar mulheres com peitos maiores que a cabeça é uma questão e estilo, não de machismo e mediocridade.

Como artista, uma das coisas mais difíceis de se enfrentar são as críticas ao seu trabalho, mas aprender a aceitá-las e a separar aquilo que é construtivo e o que é só hate é muito importante. Mas tão importante quanto isso é aprender a identificar onde os seus privilégios barram o seu trabalho de ser melhor, de ser maior. Existe, dentro da maioria dos artistas, um tipo de arrogância que vem da possibilidade de criar universos novos, é algo que a própria cultura artística infelizmente cultiva. Quando juntamos isso a percepção masculina de que apenas por serem homens eles têm uma suposta superioridade, a arrogância se torna burrice, que termina por ser opcional.

O privilégio masculino é algo que, para o próprio homem, é muito difícil de perceber, admitir ou fazer algo sobre. Essa dificuldade não o exime de culpa por não notá-lo e, no fim, esse mesmo privilégio acaba limitando aquilo que ele pode fazer com a sua própria arte. Por causa disso, eles não só acreditam que não há nada para aprender com profissionais mulheres, eles também não se dão conta que a escolha de “pular” um evento como Lady’s tem sim a ver com o gênero das palestrantes.

O Lady’s foca em convidadas mulheres, mas em momento nenhum exclui homens de participarem como espectadores ou apoiadores. Ele também não é um evento focado apenas em discutir gênero, tiveram mesas maravilhosas que nada tinham a ver com gênero – que, inclusive, representou a minoria dos temas abordados. A escolha de não participar vem única e exclusivamente deles e, mesmo que feita de maneira não-intencional, está sim baseada no gênero dos profissionais que ganham enfoque no evento.

Faz-se fila para aprender com os grandes nomes do passado, compra-se suas coleções e lotam salas de discussão – mas apenas se eles forem nomes masculinos como Ziraldo, Quirino ou Angeli. Ao que parece, quadrinistas homens não se interessam em aprender com nomes femininos que conseguiram driblar a censura e publicar tiras críticas durante a ditadura, como Ciça Pinto, ou com um dos nomes mais importantes da ilustração de imprensa, como Mariza Dias Costa.

Eles também não tem interesse em assistir palestra de profissionais de editoras, não se elas forem todas mulheres, e nem querem aprender um pouco mais sobre técnicas de pintura ou mesmo sobre como quadrinhos são utilizados dentro da sala de aula (uma ótima fonte de renda, diga-se de passagem). Eles também não querem entender ou aprender um pouco mais sobre maternidade e quadrinhos, muito menos sobre homoafetividade e quadrinhos – tá tudo bem, todo mundo viu Sense8.

Quadrinho é arte, mesmo o quadrinho de super-herói é uma forma de arte, porque ele nos conecta com temas e sentimentos, porque vivemos experiências novas ou já conhecidas através dos universos e personagens que encontramos. Porque, mesmo que inconscientemente, ele reflete a realidade à nossa volta. E é muito fácil para o artista, especialmente se ele é homem, se perder no seu próprio umbigo e acreditar que aquele mundo é o mundo à sua volta.

É assim que quadrinistas incríveis viram quadrinistas medíocres, porque acreditam que a história que estão contando, uma história que reflete apenas aquilo que eles acham ou acreditam, aquilo que eles veem apenas dentro da suas lentes míopes masculinas, aquilo que eles aprenderam apenas com outros homens é o melhor que eles podem fazer. Peitos maiores do que a cabeça, personagens femininas diminuídas a objetos sexuais ou subdesenvolvidas não é uma questão de estilo, é uma questão de mediocridade. E é uma mediocridade que existe apenas porque o artista é preguiçoso e se recusa a aprender e a olhar além do seu próprio umbigo.

Quando esses fabulosos quadrinistas já consagrados do quadrinho nacional decidem não comparecer à um evento como o Lady’s Comics, o mercado de quadrinho perde. Perde porque eles vão continuar fechados dentro de seus clubes do bolinhas, com suas broderagens e mesmo com o seu silenciamento frente ao machismo e a misoginia inerente ao mercado. Mas quem perde muito também são eles mesmos, já que limitam seu trabalho à visão masculina, como se a sua verdade fosse a grande e única verdade, como se não tivessem nada a aprender ou evoluir com visões diferentes. Eles próprios diminuem sua arte à mediocridade do olhar único. Espero que até o próximo Lady’s, ou quem sabe até o curso de verão da LoveLove6 que foi sugerido durante o encerramento do evento, esses quadrinistas decidam libertar o seu trabalho, e a sua cabeça, dessas correntes machistas que os impedem de ir além, de serem melhores.

Até mais.

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Para Ler Mais:

Broderagem, Mercado e Exclusão

O elefante na sala: Assédio no meio do quadrinho nacional. 

Como você, homem, pode ajudar a acabar com o machismo e o assédio no meio dos quadrinhos.

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