***O texto avisa quando começam os Spoilers, mas me falaram que para quem é bem extrema no quesito Spoilers talvez seja melhor ler só depois de ter visto o filme! ;)***

Em um ano que teve Mad Max e Star Wars – O Despertar da força Sufragistas pode parecer um filme pequeno. Ele não tem os efeitos especiais nem a grandiosidade de qualquer um dos outros dois, e digo logo de cara que é um filme com problemas estruturais, mas é também um dos filmes mais importantes do ano.

São MUITOS os filmes sobre as conquistas dos homens. De Coração Valente à O Resgate do Soldado Ryan. Muitos deles sobre como homens lutaram e tiveram seus direitos assegurados, sobre como disputaram guerras para conseguir liberar seu povo. Sufragistas é o primeiro filme baseado em fatos reais sobre mulheres lutando por mulheres.

O movimento sufragista inglês foi um dos primeiros movimentos de mulheres à irem as ruas para exigir o direito feminino ao voto. Ver nos créditos do filme o ano em que diferentes países concederam o direito ao voto à suas cidadãs é de apertar o coração, principalmente porque ainda há países que não fizeram isso.

sufragistas-1 sufragistas-2 sufragistas-3

A luta feminina pelo direito ao voto, aos direitos civis, ao simples direito de ser considerada uma humana com as mesmas capacidades de um homem nunca é considerada forte o suficiente. Os homens foram às guerras (que eles mesmo começaram), eles morreram para liberar os países (que eles mesmo invadiram) – essas são as histórias que merecem ser contadas. As mulheres que morreram em consequência dessas guerras, que lutaram nessas guerras, que foram peças fundamentais para que os exércitos se mantivessem no front, ou que tocaram o país quando os homens guerreavam não rendem filmes, livros e histórias épicas, quem dirá as mulheres que me garantiram o direito de ter um espaço como o collant. Ver Sufragistas no cinema é emocionante porque é um capítulo da nossa história que é continuamente tachado de ridículo, e muitas vezes usado para nos ridicularizar.

O movimento foi importante sim, e o direito ao voto é um dos direitos fundamentais dos cidadãos, mas o que começou com essa luta (e as lutas que vieram antes dessa), está longe de terminar. Porque agora temos direito ao voto, e temos os mesmos direitos civis dos homens – mas no papel. Ainda recebemos menos pelo menos trabalho, ainda somos negligenciadas pelo sistema de saúde, ainda somos consideradas menos capazes, emotivas demais, pouco eficientes e frágeis. Ainda não somos adequadas ao padrão patriarcal. Ainda somos consideradas menos talentosas que nossos colegas homens, ainda gritam meritocracia na nossa cara quando discutimos um ambiente majoritariamente masculino e baseado na broderagem.

Sufragistas é, também, um filme inteiramente branco. O movimento sufragista inglês foi sim um movimento majoritariamente branco, há pouco ou nenhum registro de mulheres negras ou mestiças participando dele, mas essa é também uma época em que ser de qualquer etnia que não a branca significava ser apagada ou embranquecida. Teria sido interessante ver o filme abordar um ponto de vista interseccional. Se uma das mulheres do filme fosse mestiça, algo não incomum numa Inglaterra do começo do século passado, que ainda tinha muitas colônias e já contava com a imigração indiana. O filme discute de leva a diferença entre as mulheres burguesas e as trabalhadoras, e mesmo o modo como essas mulheres bem-nascidas ainda estavam à mercê do machismo de seus maridos, por mais progressistas que eles parecessem. Mas discutir o modo como esses direitos ainda não se aplicariam para mulheres que não fossem brancas teria elevado a discussão do filme a outro patamar, principalmente pensando na quantidade de acontecimentos infelizes que cercaram o lançamento do filme nos EUA.

Quem achou que o filme ia render à Meryl Streep mais um Oscar, pode ficar um pouco decepcionado – Meryl está em pouco mais do que uma cena no filme inteiro. Ela vive Emmeline Pankhurst, uma das líderes do movimento sufragista. Emmeline defendia uma luta mais física e combativa e o rompimento entre ela e o resto do movimento é levemente discutido dentro do filme. Apesar dos seus comentários infelizes sobre feminismo, Meryl entrega, assim como Helena Bohan-Carter e o resto do elenco, interpretações fortes e marcantes. É gratificamente ver o modo como essas atrizes se entregam à seus papéis.

As Sufragistas faz pelos homens da sua história mais do que muitos filmes fazem por suas personagens femininas, entrega tipos diferentes de personagens, com alguma complexidade e uma variação de visão quanto à causa. Mesmo o policial encarregado de investigar e prender as militantes não é totalmente vilanizado, deixando espaço para que ele sinta a mudança e o impacto que o clímax do filme apresenta.

(SPOILERS daqui em diante)

sufragistas-burn things

“Nós quebramos, nós queimamos coisas porque guerra é a única língua que os homens conseguem entender”.

Emily Davison nasceu em 1872, foi presa nove vezes e foi alimentada a força em quarenta e nove ocasiões (greve de fome era uma das principais armas das militantes da época). Emily morreu depois de entrar numa corrida de cavalos em homenagem ao rei enquanto segurava a bandeira sufragista. É incerto se a morte de Emily foi suicídio ou uma tentativa de grudar a bandeira num dos cavalos, o fato é que ela morreu pela causa. No seu cortejo fúnebre milhares de sufragastes foram às ruas, dezenas de milhares de pessoas se uniram à elas. A morte de Emily foi o estopim para que a lei do sufrágio para mulheres acima de 21 anos fosse assinada em 1928. Vimos tantos filmes sobre homens dispostos à morrer pela sua causa, porque não nos dar a história real de Emily e sua luta?

Apesar de Emily estar no filme ela é mau utilizada o que gera um problema de roteiro. Maud tem como importante aliada dentro do movimento Violet, mãe de muitos filhos e militante disposta à praticamente tudo, Violet tem um espaço no filme que deveria ter sido de Emily. A morte de Emily é o clímax do filme, e você sente ele sim, mas Emily é uma personagem que aparece pouco e não é central na história de Maud, diminuindo assim o impacto do ponto de vista pessoal de sua morte. Tivesse Emily sido a mentora de Maud no movimento, talvez o filme teria funcionado melhor dentro de sua estrutura de roteiro, atingindo com mais força um público menos familiarizado com a luta.

Apesar disso me pergunto se tirar Emily do centro do filme não foi uma decisão cirurgicamente pensada. Filmes históricos e biográficos são relativamente criticados por adaptarem determinados acontecimentos, mudarem ordem de eventos na vida do personagem, para que a estrutura do filme funcione melhor. Se fosse a história de Emily, ou mesmo se fosse ela a mentora de Maud no filme, talvez as críticas se focariam na bendita falta de acurácia histórica, não me surpreenderia se lêssemos que o filme muda a história para enaltecer o movimento. Eu não me surpreenderia se mesmo com o filme como ele é hoje isso acontecesse.

Tem um determinado momento do filme, que aparece já no trailer, em que Maud está olhando as vitrines de uma loja quando Violet olha para ela e acerta uma pedra na janela, gritando Voto para as mulheres! O olhar de Violet é um flerte entre duas mulheres. Uma chamando a outra para a luta, mostrando que aquilo que move Violet também está dentro de Maud. Chamando a irmã para que juntas elas sigam em direção à um futuro mais igualitário, para que juntas elas tracem o futuro sobre o quão nós lutamos hoje.

sufragistas-nunca-desista

 

As Sufragistas estreou no dia 24/12.

  • Marcos Correia

    Acho que tem um errinho no texto, no trecho: ” É graficamente ver o modo …”. Não seria “gratificante”?

    • Rebeca Puig

      Opa! Valeu pelo toque, Marcos!

  • “A luta feminina pelo direito ao voto, aos direitos civis, ao simples direito de ser considerada uma humana com as mesmas capacidades de um homem nunca é considerada forte o suficiente. Os homens foram às guerras (que eles mesmo começaram), eles morreram para liberar os países (que eles mesmo invadiram) – essas são as histórias que merecem ser contadas. ”
    Exato! 😀

  • Vi o filme neste final de semana em casa, porque nenhum cinema de curitiba está passando o filme. Já tinha lido sobre alguns problemas estruturais do filme, como a falta de mulheres não-brancas em geral. Apesar disto, o filme é emocionante e forte. Me vi chorando copiosamente em vários momentos distintos do filme. Sinceramente, fiquei querendo mais quando ele acabou.

  • Bruna Della

    Você citou algo muito importante, a questão racial… mas acho que daria um outro filme, talvez até mais intenso.

    Quero te beijar, posso?

    Abraços de luz,
    http://www.cappuccinoebobagens.com

%d blogueiros gostam disto: