Em outubro de 2014, Dear White People estreava nos cinemas americanos depois de ter feito grande sucesso em janeiro deste mesmo ano no Festival Sundance de Cinema, no qual fora premiado na categoria US Dramatic. Dirigido e roteirizado pelo cineasta Justin Simien, que ganhou o prêmio de Best First Play, o filme busca, por meio de uma crítica ácida, evidenciar o racismo dentro de uma grande universidade estadunidense, a University Winchester, criada ficcionalmente, mas que tem muitas – senão todas – semelhanças com as grandes instituições de ensino que compõem a famosa Ivy League.

A premissa que deu origem ao filme, como aparece nos minutos finais do longa-metragem, foram as inúmeras ocorrências de blackface em festas de repúblicas americanas. Para aqueles que não sabem, o termo blackface refere-se, em um primeiro momento, às caracterizações feitas por homens brancos para representar homens negros, que podiam ser escravizados ou não, durante apresentações circenses. Assim, o rosto era pintado de preto e a boca com um contorno vermelho exagerado. No Brasil, além de algumas vezes esse triste fato ocorrer ainda na televisão, também encontramos esse tipo de caricatura racista no carnaval, com muitos foliões se fantasiando de mulher negra, e, assim como nos Estados Unidos, o blackface também pode ser encontrado em festas universitárias.

E é mostrando a repercussão negativa de uma festa de Halloween organizada por estudantes brancos da University Winchester com a temática “afro-americana” e que pedia para os convidados liberarem seu negro interior, que Dear White People começa.

A trama, dividida em capítulos, foca-se na vida de quatro estudantes negros que precisam lutar contra o racismo dentro da instituição de ensino, além de enfrentar seus próprios problemas pessoais.

Samantha “Sam” White, estudante de Cinema, é quem comanda o programa de rádio que dá nome à obra cinematográfica. Protagonizada por Tessa Thompson, a personagem é a mais ácida e crítica dentro do enredo, beirando ao caricato da mulher negra briguenta e nervosa. Todavia, esse aspecto não passa de uma máscara criada pela própria Sam, já que no decorrer do filme podemos conhecer melhor os seus anseios e angústias. É interessante perceber que seu sobrenome reflete esses problemas subjetivos: Samantha é uma garota negra de pele mais clara que tenta a qualquer custo fingir algo que não é, desde suas preferências fílmicas, pois ela diz para todo mundo que seu diretor preferido é Spike Lee, cineasta negro, quando na verdade é Ingmar Bergman, cineasta sueco, musicais, dentre eles, o fato de ouvir Taylor Swift escondida. Além disso, esconde seu envolvimento amoroso com um garoto branco de sua turma, tudo para que seu papel na militância estudantil negra não seja manchado. Inclusive, esse é um dos motivos pelos quais a faz querer disputar o cargo de presidente da república Armstrong-Parker, local que tradicionalmente recebia apenas alunos negros.

Nesse contexto, Troy Fairbanks, interpretado por Brandon Bell, aparece. Troy é estudante de Ciências Políticas e concorria a uma reeleição para o cargo de presidente da Armstrong-Parker. Além disso, é filho do reitor dos estudantes, Dean Fairbanks, o que aumenta ainda mais a pressão sobre ele, já que muitas vezes seu pai o exibe para que consiga angariar dinheiro à universidade. Em um dos momentos mais interessante do conflito entre pai e filho, é quando o pai de Troy comenta a sua rivalidade com o presidente da University Winchester: “Fletcher e eu nos formamos com um ano de diferença. Ele quase não passou. Eu me formei com honras e méritos. Agora, quem é o reitor e   quem é o presidente?”. Fica evidente, nesta cena, que por mais esforços que uma pessoa negra faça, ela nunca será reconhecida com a facilidade de uma pessoa branca. Isso se ela for reconhecida.

A outra personagem feminina negra é Colandrea “Coco” Conners, desempenhada pela atriz Teyonah Parris, que é praticamente o oposto de Sam. Coco é estudante de Economia, possui um canal no Youtube e tenta chamar a atenção de um olheiro virtual para que consiga participar de um reality show, busca de todas as formas anular qualquer ligação negra que possa ter, sendo caracterizada como uma mulher negra embranquecida. Além disso, ela detesta o fato de ter que ficar na Armstrong-Parker, já que não quer se envolver com negros. É nítida a tensão cruel pela qual a personagem passa a trama inteira, pois começa a ficar dividida entre  posicionar-se contra os episódios de racismo que passa ou permanecer calada para ser aceita pelos estudantes brancos.

Lionel Higgins, protagonizado por Tyler James Williams, é a última peça do quarteto de protagonistas e também traz à tona uma importante discussão dentro da trama: o que é ser gay dentro do movimento negro. Em um primeiro momento, Lionel mora em uma república de estudantes brancos, a Pastiche, que é a responsável pela festa de Hallowen exposta no início do texto, e após alguns problemas na moradia, começando pelo fato dele ser humilhado publicamente com uma mensagem na secretária eletrônica do telefone da república por causa de sua orientação sexual, o reitor pergunta se Higgins gostaria de se mudar para a Armstrong-Parker e ele responde que “a pior coisa sobre o colegial, e acredite em mim, senhor, a lista é bem longa, eram os garotos negros”. Todavia, no decorrer do filme, Lionel acaba sendo acolhido pelos alunos negros.

É por meio dele que vemos a discussão sobre tocar em cabelos cacheados e crespos, já que por possui um black power bem estilo anos 50, várias personagens – todas brancas – querem ficar mexendo em seu cabelo. Além disso, uma das melhores cenas do longa é protagonizada por essa personagem e só não conto porque seria um grande spoiler.

Dos embates que acontecem no filme, o mais interessante é quando todas as personagens estão juntas no refeitório da Armstrong-Parker e começam a falar sobre racismo, cada um dando uma posição diferente ao debate: a discussão se inicia com os colegas de Sam comentando que se sentem irritados quando os professores os confundem com outros alunos negros. Coco, então, questiona o porquê deles estarem culpando os brancos por tudo, já que a questão se resolveria se o aluno fizesse de tudo para ser o melhor da sala e não se deixar ser comparado. Troy, de certa forma, também endossa a fala de Coco e acrescenta que nunca presenciou um episódio racista, então não tem pelo que argumentar. Sam, que até então só observava a situação, envolve-se na conversa explicando que o racismo ainda existe e está presente na universidade, só que de forma mais camuflada. Lionel faz uma pequena participação no debate comentando que é só ver o que os jovens republicanos pensam sobre direitos gays para ver até que ponto esse linchamento social realmente não existe. O problema acontece quando uma personagem branca, Kurt Fletcher, decide falar e dar sua opinião:

Olhe seus grandes atletas, estrelas de cinema… Que merda, meu presidente é negro. Às vezes eu penso que a coisa mais difícil de ser, no mercado de trabalho americano hoje, é um branco educado. E olhas, vocês ainda têm ações afirmativas, só estou dizendo.

Parece que o diretor se inspirou em Jair Bolsonaro nessa parte, não? Enfim, esse trecho é interessante para perceber alguns pontos de convergência entre a sociedade americana e a brasileira, já que ambas acreditam que não há mais racismo em seus respectivos países, apesar do racismo nos Estados Unidos ser gritante, vide os protestos de 2015 e 2016, como o movimento Black Lives Matter.

Sim, todas as vidas importam, mas nós estamos focados nos negros porque é muito aparente que nosso sistema judicial não sabe disso.

De modo geral, o filme tem um roteiro bem construído, tanto que são notáveis as mudanças pelas quais todas as personagens principais passam. Vale muito a pena ver e refletir sobre os diversos pontos apresentados. E, bom, em 2016 a Netflix confirmou que faria uma série baseada no filme, ficando também a cargo de Justin Simien. Semana passada foi finalmente divulgado um teaser do seriado e não precisa nem falar que os brancos americanos surtaram, né?

%d blogueiros gostam disto: