Eu, você e todo mundo que anda há alguns anos na internet já viu alguma foto linda em tons pastel com o livro #GIRLBOSS, de Sophia Amoruso. O livro foi uma febre há alguns anos atrás. Eu queria ler – porque eu sempre leio tudo o que todo mundo está lendo – mas a oportunidade nunca chegou e sempre tinha outro livro na frente. Antes de começar, é bom que você saiba: eu sou uma figura perfeita de um Millennial. Tenho 26 anos, sei usar filtros no Instagram, gosto de café e sou empreendedora. Sim, eu sou dona de uma pequena marca há 3 anos agora. Eu me envolvi de cabeça nos meios de eventos para divulgar a marca, sites feitos sem a ajuda de programadores (quase) e estúdios de foto improvisados na sala de casa. Aos poucos eu fui percebendo que minha pegada era muito mais do “feito à mão e consumo consciente” do que a do “fazer a empresa gerar o primeiro milhão antes dos 30”. A marca compõe minha renda e ajuda a desenvolver minhas habilidades manuais de uma vida toda. Nunca vou ficar rica com ela, mas também nunca pretendi. Ao longo desses anos, tendo feito amizade com muitas outras pessoas donas de pequenas marcas e sendo muito ligada a questões de gênero, parece mais que natural que eu tenha sido bombardeada com a ideia do #GIRLBOSS.

A série saiu, eu somei 2 + 2, e soube que esse texto era meu na hora. Fui ler o livro e assistir à série toda.

Antes de falar sobre a série, já aviso: penei pra terminar o livro. O meio dele é repleto de um espírito auto-ajuda demais para mim, apesar de ter tirado alguns conselhos bons de como gerir uma marca. Mas me incomoda profundamente essa postura capitalista da meritocracia. Eu não acredito em meritocracia. Todo o discurso de Sophia é que uma #GIRLBOSS corre atrás do que quer, trabalha com o que ama, se dedica à fundo e, por isso, é bem sucedida. Mas não é assim que funciona, vocês já devem estar cansados de saber. Ganhar dinheiro, trabalhar com o que se ama, etc etc, tudo isso está ligado a privilégio. Privilégio em poder escolher com o que trabalhar porque não se precsa ganhar dinheiro correndo; em ter casa dos pais pra voltar caso falte grana pro aluguel; em ter acesso a tecnologias que te permitam aprender e tocar um negócio. Sophia faz uma autocrítica, afirmando saber que por se branca, de classe média, com possibilidade de estudar, foi privilegiada? Sim. Sophia deixa de pregar a meritocracia? Não. A mim incomoda pra caramba, porque meritocracia com glitter e flores no cabelo continua sendo uma crença idiota. Pra mim não desce.

Além disso, claro, sempre tem o problema da autobiografia. O livro é escrito por Sofia sobre ela própria e a série a tem como produtora executiva. E não, as pessoas não costumam falar mal de si próprias. Talvez algo como “eu fui grosseira” ou “eu traí meu namorado”. Mas nunca “eu roubei o design de uma pequena marca,  fui acusada de plágio e, adivinha, é tudo verdade”.  E é verdade mesmo. Uma rápida busca no Google te mostra dezenas de casos em que a Nasty Gal se envolveu em processos por roubar designs, desde marcas locais até Balenciaga. Muito disso escapa pelas rachaduras no livro – e na série fica bem óbvio – mas a razão principal é: os parâmetro éticos de Sophia são bem maleáveis. E ela parece não achar que tem nada de errado nisso.

100% nem aí

Eu tenho uma qeustão que me acompanha há muitos anos (talvez desde a infância, mas não vou exagerar): como louvar coisas boas feitas por gente babaca? Sabe aquela pessoa da faculdade que é idiota com todo mundo, que se acha melhor que os outros, mas que sempre faz trabalhos lindos? Eu sempre odiei essa pessoa. Eu olhava e pensava como era injusto que algo tão lindo tivesse saído de alguém tão babaca. Eu queria elogiar o trabalho, mas ele era uma extensão daquela pessoa que eu não suportava. Eu senti isso com a Sophia. Ela é genial. Criou uma empresa do nada, moldou o jeito que todos nós usamos as redes sociais para vendas, quando a empresa estava mal das pernas, escreveu um livro bombado que a manteve no topo, e quando o livro parecia exaurido, fechou contrato com a Netflix pra produzir uma adaptação da série. Incrível do início ao fim. Mas ela é insuportável. Arrogante, acha que todo mundo sente inveja dela por ela ser “oh-tão-boa”, de moral duvidosa… Ela era o anti-herói perfeito pra uma série.  O problema é que a série não é boa.

A começar pelo timming estranho: a Nasty Gal pediu falência ano passado e vive um processo de recuperação da empresa por parte do governo. Ela teve que deixar o cargo de CEO da empresa como medida para continuar existindo. Fica muito difícil comprar a ideia do quanto Sophia fez um caminho incrível sendo que sabemos disso agora. Parece que #GIRLBOSS saiu um pouquinho atrasada.

Em segundo lugar, eu não sei se essa é a Sophia da vida real, mas a da série é intragável. Ela humilha pessoas  e se engana você se acha que ela só tem problemas com autoridade. Ela é grosseira com funcionários, amigos e pessoas que lhe prestam serviço. Arrisco dizer que ela parece se sentir muito bem consigo mesma ao tratar os outros mal. Se isso não fosse o bastante, ela faz rindo aquilo que a gente critica: passa os outros pra trás sem ligar pra nada. Sabe o típico vendedor que compra roupa barata e te revende com quatro zeros a mais porque grudou uma etiqueta? É ela. E, gente, podem me chamar de bobinha, mas eu ainda não acho legal tirar vantagem dos outros. Metade dos comportamentos dela na série são ou dar a volta em gente que trabalha com ela ou no mesmo ramo que ela ou roubar coisas, destruir lugares e objetos.

Eu acho que todo personagem tem que ser bonzinho? De maneira nenhuma. Valorizo que hajam protagonistas fortes e até mesmo com traços de vilã, por que não? Mas não apoio normatizar e, pior, vangloriar comportamentos antiéticos. Você não pode fazer uma série de comédia, com uma musiquinha legal e um figurino da hora, mostrando o quanto é lindo ser desonesto. O mundo tá chato, né? A gente problematiza tudo, vê problema em tudo. Pois é. Talvez o mundo já não aceite mais com tanta facilidade personagens assim. Pode reclamar na caixa de comentários que eu aguento.

Daí sabendo dessas duas coisas sobra o que? Olha, como bem disse a Sonia Saraiya no seu review pra Variety, sobra uma carta de amor a um modelo de sucesso que não existe.

Como técnica, a série acerta naquilo que eu acho que era o mínimo dado o tema: a direção e arte e o figurino. Aliás, se tem uma coisa que me manteve assistindo a série até o fim foi o amor que eu sinto por roupas. O figurino é lindo, bem cuidado, bem acabado – e convenhamos que deve ter sido uma delícia de trabalhar nesse setor da série. Só a jaqueta icônica que ela usa na série já me valeria todas as horas que eu gastei irritada com a personagem. E isso foi o grande diferencial da Nasty Gal ao longo dos anos: saber montar looks lindos que deixam a gente morrendo de vontade de usar.

O roteiro em si é fraco, mas nada muito diferente de outras obras recentes que se focam no público jovem. Os diálogos são fracos porque forçados, mas a atuação deixa mais a desejar. Não sou fã de uma atuação 100% realista nema cho que não haja espaço pra outros tipos de interpretação na tv, mas a série deixa a dúvida se a ideia era uma atuação mais exagerada, se as atrizes estão trabalhando mal ou se a direção errou na mão. De qualquer modo, há momentos – principalmente os de intimidade entre Sophia e sua amiga – que chegam a dar um pouco de vergonha alheia.

Mesmo assim, há algumas soluções bem interessantes para a adaptação da série. O livro é inteiro misturado, entre conselhos e pequnas anedotas sobre sua vida. Acertadamente, algumas passagens breves, porém com potencial, foram extraídas e geraram boas sequências, como a cena das caronas e do festival e as sequencias com a vendedora rival. A ideia de condensar diversas histórias, que ocorreram com diversas pessoas que passaram pela vida de Sophia, em dois ou três personagens é boa e funciona bem. Sem essas personagens de apoio, como a melhor amiga e o namorado, ficaria mais difícil de dar fluidez à história. Ponto também para as referências anos 2000, quase todas saídas da boca de Annie, a melhor amiga. Os comentários sobre Briney Spears e The O.C. são muito divertidos.

Se Britney sobreviveu a 2007, GIRLBOSS sobrevive a algumas críticas ruins.

Antes de terminar, eu queria fazer um breve comentário. Eu li muita gente falando que “ah, mas os personagens homens babacas não são criticados como estão criticando essa personagem”. Calma lá.

Primeiro, que aqui no Collant a gente já apanhou E MUITO por criticar personagens babacas que todo mundo ama. E ouviu o discurso de sempre: que é frescura, que é só um filme, que a gente não tem senso de humor, e todo um caminhão de clichês. E assim como nós, muitas pessoas no mundo não acham graça em gente que trata os outros mal e faz piada imbecil.

Segundo, que não há nada, NADA, de inovador em personagens femininas poderosas ao mesmo tempo que são completamente estúpidas e intragáveis. Esse é o grande esterótipo das mulheres poderosas na cultura pop. Então não estou entendendo da onde saiu essa ideia de que a persongem de Sophia é um ponto fora da curva nesse sentido.

Uma amiga me perguntou “mas qual é a diferença dela pra personagem da Meryl Streep em O Diabo Veste Prada?” A pergunta me fez pensar por alguns instantes. Claro que a gente não estabelece uma relação de amor com a Miranda (mesmo amando Meryl). Ela é uma chefe horrível, com quem a gente não ia querer trabalhar nunca. Mas a personagem tem contronos, tem profundidade. A gente vê além da chefe horrível. Vemos uma mulher endurecida, que acha naquela postura a forma de conseguir respeito. E isso não perdoa o comportamento dela, mas faz com que a gente a veja como mais do que só aquilo que se espera. Talvez seja isso que falta em Girlboss. A série soa amadora na maior parte do tempo, e quando não está soando assim, soa como panfletária e comercial. E é uma pena. Eu queria muito ter visto uma personagem mais complexa do que a menina que rouba porque pode, grita porque pode, ganha dinheiro porque pode, e não liga pra mais nada.

 

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