Eu já tinha assistido a Celine and Julie go boating, do Jacques Rivette, há uns bons anos, mas recentemente ele voltou a me chamar a atenção. Da primeira vez que o vi, minha interpretação deslizou por cima do aspecto feminista do filme, sem percebê-lo, e caiu direto na questão da crítica do capitalismo. Agora, e principalmente depois de ter lido uma resenha incrível (Les Spectatrices Emancipées, em francês), espero juntar esses dois aspectos para criar uma compreensão mais completa.

O filme começa com uma cena onde Julie (Dominique Labourier), uma bibliotecária, sentada num banco, lê um livro de magia e, com gestos e palavras, tenta invocar um acontecimento. Enquanto fica clara a sua frustração com seus não-poderes mágicos, uma estranha mulher, levando uma sacola imensa e visivelmente atordoada, passa pelo parque e deixa cair um par de óculos. Julie tenta em vão chamá-la, mas vendo que a mulher não a escuta, ela a segue — inicialmente apenas pelo óculos e por outros objetos que a mulher deixa cair, mas depois por uma crescente curiosidade. Percebendo que está sendo seguida, Céline (Juliet Berto) foge com ainda mais avidez e termina por entrar num hotel.

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quem é essa louca?

Esse primeiro momento de encontro entre Céline e Julie se estende, com as duas envolvidas no que parece ser uma força de atração e repulsão: Julie vai atrás de Celine no hotel; Celine aparece na biblioteca onde Julie trabalha (e tenta por todo modo adivinhar o futuro, jogando cartas com uma amiga), e finalmente, quando Julie volta para casa depois do expediente, lá está Céline, dormindo na escada, com um machucado no joelho.

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“meu destino está no meu presente.”

É nesse momento em que a história de cada uma é revelada (não sem um pouco de surrealismo). Céline toma um banho enquanto conta a Julie sobre suas viagens, diz que trabalha como mágica, e, enquanto Julie faz um interminável curativo em seu joelho, que trabalhava como babá numa casa burguesa, da qual fugiu. Julie conta sobre seu amor de infância, Grégoire, com quem vai se casar em breve, quando ele voltar para Paris. Essa cena, extremamente simples, mostra uma estranha conexão entre as duas, onde uma “adivinha” o pensamento da outra, o que dá à essa relação ares de magia e destino.

No dia seguinte, Julie vai à casa onde Céline trabalhava — 7bis da rua Nadir aux Pommes — e é então que Céline and Julie Go Boating se transforma em um filme dentro de um filme, criando um universo confuso onde a imediata identificação de uma mulher com a outra permite que mais de um impossível aconteça, como se, juntas, elas encontrassem uma abertura no tecido da realidade que as permitisse entrar e sair dela à vontade.

É nas cenas dentro da casa burguesa — onde moram duas mulheres, um homem, e uma garotinha — que a realidade claramente se desfaz. Lá dentro, existe um universo fechado de intrigas, conformidade e artificialidade, lembrando bastante uma telenovela. Olivier, o homem, oscila entre a companhia das duas mulheres (Camille et Sophie) numa repetição nauseabunda do que parece ser sempre o mesmo dia, com as mesma ações se desenrolando entre os personagens. Quando Julie (ou Céline) entra na casa, a lógica desse universo imediatamente toma conta dela, fazendo com que se torne, também ela, uma espécie de peão num jogo pré-programado.

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claramente não curtindo o discreto charme da burguesia

Assim que Julie sai da casa pela primeira vez, ela anda hesitante pela rua, como se acabasse de acordar de um transe, e pega um táxi para encontrar Céline. Ela descobre dentro de sua boca um doce (como uma bala soft alucinógena, na real), que ela guarda em sua bolsa. Ela diz não se lembrar de nada do que aconteceu dentro da casa, mas, à noite, com Céline, ao colocar o doce novamente na boca ela tem flashes da personalidade que assumiu lá dentro, dizendo que a babá da casa era igualzinha à ela.

No dia seguinte, é Céline quem vai à casa, saindo de lá exatamente como Julie no dia anterior — hesitante, atordoada, com um doce na boca. A partir daí, a cada noite o mesmo ritual é performado: aquela que foi à casa come o doce e conta à outra o que viveu, como se o doce fosse a fenda na realidade que permitisse uma visão mais clara (e aí entra a mensagem crítica de Rivette à burguesia) da gaiola dourada onde moram aquelas pessoas, com seus interesses mesquinhos e seus jogos de poder. É então que elas percebem progressivamente que, entrando juntas, a casa perde seu poder sobre elas. Somente em companhia uma da outra é que elas são capazes de manter suas próprias personalidades.

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<3

As cenas que antecipam o fim são as de Julie e Celine, ambas vestidas de babá, dançando juntas debaixo dos olhos cegos de seus patrões, que a cada dia se tornam menos humanos. E é esse o ponto em que eu queria chegar.

Conforme elas se aproximam uma da outra, conforme a amizade entre elas cresce e uma verdadeira relação de cumplicidade se cria, Julie e Céline destoam tanto do que é esperado delas enquanto mulheres que elas se tornam positivamente invisíveis para o trio de burgueses. Ao contrário de Camille e Sophie, que têm uma relação de rivalidade por buscarem o interesse de um homem, Céline e Julie encontram uma na outra uma força que permite que elas sejam totalmente livres, mesmo dentro do universo desfavorável, capitalista e machista, que representa a casa da rua Nadir aux Pommes.

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se esse filme não é sobre o poder da sororidade, eu realmente não sei sobre o que é

No final, Céline e Julie saem de barco — levando com elas a filha de Olivier, única pessoa na casa capaz de acordar do transe em que eles se colocaram — rumo ao desconhecido, recusando com veemência uma realidade deprimente e opressora.

Rivette faz um ótimo trabalho retratando a amizade entre as duas. As cenas de Julie com Céline são maravilhosamente informais, engraçadas, espontâneas. Ele também deixa claro o seu posicionamento contra a sociedade capitalista, simbolizada pelos três personagens da casa: um mundo artificial, onde só as aparências e o poder importam, onde todos estão constantemente contra todos, e que progressivamente nos transforma em estátuas. A esse mundo se opõe a vivacidade de Céline e Julie, magicamente subversivas numa sociedade que afirma sempre que as mulheres devem competir entre si para assegurar seu valor sob o olhar masculino. Apesar do filme ser de 1974, a mensagem continua atual — num mundo onde “sambar na cara das inimiga” é prioridade pra tantas pessoas, viva a sororidade!

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