Eu evito certo filmes. Não por maldade, sabe, nem por má fé, mas porque eu prefiro evitar algumas temáticas – filmes e livros que mostram gente feliz demais ou gente triste demais, os primeiros por serem muito “falsos”, os segundos por serem muito reais. Vai saber. De qualquer forma, eu evitei O Retorno durante uns 4 anos, e só assisti mesmo num momento de desespero (leia-se tédio) e poxa, cara. Poxa vida.

return2

Daí resolvi escrever sobre, porque é assim que eu lido com as coisas. Inclusive contando spoilers que podem estragar totalmente a experiência do filme, então cuidado aí.

O Retorno (2003) conta uma história bastante simples, em termos de plot. Numa pequena cidade russa, Andrey (Vladimir Garin) e seu irmão mais novo Ivan (Ivan Dobronvarov), vivem com a mãe a avó. Um dia, o pai, Otets (Konstantin Lavronenko) volta após 12 anos de ausência e na mesma tarde, resolve levar os dois filhos numa viagem de 3 dias, num esforço para criar os laços familiares que nunca existiram. É isso. Mas é a forma com que o diretor, Andrey Zvyagintsev, molda seu primeiro longa-metragem que é o soco no estômago.

Logo na primeira cena em que Otets aparece, fica claro que ele é como um gigante. No quarto mal iluminado, ele dorme, quieto e presente como um bloco de cimento que os filhos observam sem saber como reagir. Será ele mesmo? Ivan corre até o sotão para procurar uma fotografia já envelhecida da família: sim, é ele. Mas por que ele voltou? E onde ele estava? E o que fazer agora? Na mesa de jantar onde todos se sentam calados, o gigante parte a carne com as próprias mãos e anuncia a viagem em família – não pergunta nada, apenas afirma.

return1

Essa cena do jantar é o momento em que a personalidade de cada um começa a se delinear, através de suas reações. De acordo com Zvyagintsev, cada personagem é um elemento: a mãe (Terra) observa temerosa e constante; o pai (Água) é quem traz e anuncia a mudança; Andrey (Ar) esforça-se para aceitar o pai, forçando um entusiasmo que ele talvez não sinta para agradar Otets; e Ivan (Fogo) é quem ousa fazer as perguntas. É ele, o mais novo, quem tem mais dificuldades para adaptar-se ao mundo que o rodeia, o que fica claro também na cena inicial, onde ele se recusa a saltar do píer ao mar, apesar da insistência dos outros garotos e de seu irmão.

Na manhã seguinte, os três partem e os conflitos entre pai e filhos começam a tomar forma. Qualquer situação é suficiente para que os ânimos se alterem, especialmente entre Otets e Ivan, cuja postura é sempre a da recusa. Ele recusa o prato de comida que o pai lhe oferece como se recusasse a própria presença do pai. Andrey, sendo mais velho, engole suas dúvidas em relação ao pai, ainda que este, por vezes, seja por demais enérgico, quase injusto. Otets pode não ser o pai que ele queria, mas ele é um pai a quem se deve respeito e devoção. Um pai que ele se esforça para entender. Ivan, por outro lado, não deixa passar nada; as represálias de Otets apenas endurecem sua recusa. Ele não vê um pai, mas um estranho que exige dos filhos que ele não conhece aquilo que ele mesmo nunca ofereceu, que tenta dobrar suas personalidades individuais e transformá-los em cópias de si: gigantes, rígidos, violentos, “homens”.

Uma cena bastante chocante é quando, após um dos poucos momentos onde os garotos se divertiram de verdade, acampando e pescando, o pai avisa que a viagem continuará. No carro, Ivan, irritado, insiste que quer continuar pescando, e Otets pára o carro no meio de uma rodovia, manda o filho descer, entrega a ele sua vara de pescar, e o deixa sozinho. “Se você quer pescar, então vá pescar”. Ivan espera durante horas na chuva até que o pai retorna, rindo dele como se nada fosse.

return4

como traumatizar seu filho para sempre

Após telefonemas e encontros com pessoas desconhecidas e por motivos desconhecidos, Otets decide estender a viagem. Eles param o carro diante de um lago, constroem um barco (algo que o pai faz com naturalidade, e que faz com que os meninos tenham ainda mais dúvidas sobre o seu passado) e partem para uma pequena ilha deserta. Isolados, os conflitos se intensificam. Ambos Andrey e Ivan percebem que Otets esconde alguma coisa: ele dá voltas pela ilha sozinho e, sem que os filhos saibam, desenterra uma pequena caixa de conteúdo misterioso que mais tarde esconde no barco que eles construíram.

return3

O clímax ocorre quando Ivan e Andrey saem para pescar e desobedecem o pai. O gigante não admite falha alguma e a tensão aumenta até que ele começa a espancar Andrey. Ivan tenta defender o irmão, ameaçando o pai com uma faca, e sua recusa a tudo aquilo toma a forma de uma fuga: ele corre pela ilha, subindo numa torre de observação na qual, mais cedo, ele havia se recusado a subir. Incapaz de aceitar o pai, ele prefere aniquilar-se a ter de viver com ele. Otets o segue, desculpando-se, mostrando pela primeira vez o amor e a preocupação que sente em relação ao filho, mas ao chegar ao topo da torre para salvá-lo, é ele quem cai.

A morte de Otets não perturba pela queda, nem pelo corpo de gigante deitado, agora inofensivo, mas por tudo que ele não pôde dizer, por todas as questões que não terão resposta. Com a morte do pai, tudo fica pela metade. O conflito não é resolvido, mas aniquilado. É uma das mortes mais “sinceras” que já pude ver num filme, uma morte que não espera o momento certo, uma morte que não é uma conclusão.

Os filhos arrastam o corpo do pai até o barco, planejando voltar com ele para enterrá-lo da forma certa, mas ao atravessar o lago, enquanto Andrey e Ivan abrem o carro, o barco afunda, com o pai, a caixa e o segredo. Eles correm para socorrê-lo, chamando-o, mas é tarde demais. Eles regressam e, da pior forma possível, tudo volta a uma estranha “normalidade”: o pai ausente e os filhos sem saber.

return5

O Retorno é um filme que não tem fim, ao menos não no sentido mais comum de fim. Não tem conclusão, não tem desfecho. Como o final d’O Castelo do Kafka, a história simplesmente para num determinado momento, impossibilitada de continuar e de dar as respostas que gostaríamos. Não sabemos por que Otets voltou, nem de onde ele voltou, nem quem ele realmente é. No fim das contas, a pergunta é se precisamos mesmo saber disso. Mesmo sem um final fechado, o que vale é a experiência – tanto a dos personagens Andrey e Ivan, quando a do espectador. No fim das contas, ele aponta as respostas ao escondê-las.

%d blogueiros gostam disto: