Quem conhece o trabalho da mangaka Nananan Kiriko sabe que o universo que ela retrata em suas histórias é bastante particular: minimalista, lento, bittersweet, impregnado pela banalidade do cotidiano. Dos poucos trabalhos traduzidos para inglês / francês que consegui encontrar, todos parecem apresentar um momento específico da vida dos personagens: o instante da morte de um sonho. A história, então, foca no árduo trabalho interior que os personagens devem fazer para sobreviver à quebra desse sonho, o que sempre é muito interessante.

Strawberry Shortcakes (2006), dirigido por Hitoshi Yazaki, é a segunda adaptação dos seus trabalhos para o cinema — o primeiro sendo Blue, de 2001 — e ele consegue captar perfeitamente a atmosfera criada por Nananan Kiriko no mangá. O filme conta a história de quatro mulheres vivendo em Tóquio: Satoko, Akiyo, Toko (primeira atuação de Kiriko, aliás) e Chihiro, com cada uma delas vivendo sua própria tragédia pessoal.

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Em ordem: Satoko, Chihiro, Akiyo, Toko e Kikouchi.

Strawberry Shortcakes começa com a narração de Satoko, contando sobre um término de namoro no mínimo dramático. De pijamas, no meio de uma rua comercial, ela implora a seu namorado que não a deixe, de forma quase cômica (a tragicomédia sendo também bastante comum nos trabalhos de Kiriko: aquele risinho infeliz que você solta quando o mundo desaba nas suas costas, pra te impedir de chorar). Quando o namorado se desvencilha dela, dando-lhe um chute no rosto (enquanto ela se arrasta atrás dele), ela se levanta, como se acordasse de um transe e diz: porque eu sobrevivi a isto, eu sei que posso fazer qualquer coisa.

O filme começa dois anos mais tarde. Satoko trabalha como secretária numa agência de “escorts” chamada Heaven’s Gate, mora num pequeno apartamento com uma incrível vista da cidade, e passa a maior parte de seu tempo sozinha. Ao sair do trabalho, ela pára para comprar cigarros e encontra uma pedra com um estranho formato, no meio da rua. “Deus?” ela diz, olhando para a pedra. Ao chegar em casa, Satoko cria um altar improvisado para este Deus encontrado por acaso e reza para encontrar um namorado.

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A segunda personagem, Akiyo, é uma das escorts de Heaven’s Gate, a mais velha entre as mulheres que trabalha lá e rejeitada pelas outras por esse mesmo motivo. Em sua casa, Akiyo dorme em um caixão. Sua tragédia é estar no meio da linha que separa dois extremos: o amor e a morte. Ela está apaixonada por um ex-colega da faculdade, Kikouchi, que parece insensível a seus esforços para conquistá-lo. Akiyo vive esta vida dupla: em Heaven’s Gate, ela é sexy, misteriosa, a mulher que “rouba” os clientes as outras. Apenas Satoko ousa se aproximar dela. Diante de Kikouchi, ela é uma espécie de geek inofensiva, usando camisetas e jeans quase andróginos, extrovertida e amigável. Em Heaven’s Gate, quando ela e Satoko escutam as outras garotas falando mal dela — “ela aceita qualquer cliente, deve ser uma desesperada” — ela diz que o motivo pelo qual não dispensa nenhum cliente é porque ela precisa do dinheiro para comprar um apartamento no quinto andar: quando ficar velha e deixar de ser bonita, ela vai se suicidar.

Chihiro aparece quase como uma nota dissonante, no filme. Ela é otimista, extremamente feminina, quase inocentemente sonhadora. Ela trabalha como secretária em uma empresa onde ela faz todos os esforços possíveis para agradar patrões e clientes. No início do filme, Chihiro diz estar “começando um relacionamento sério com um homem”, o que parece ser o bastante para compensar seu cargo inferior no trabalho e quaisquer outros problemas que ela poderia ter.

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Toko é uma ilustradora que divide um apartamento com Chihiro. Ao contrário de sua roommate, ela é quieta, introvertida, e seu único interesse é seu trabalho. A sala do apartamento é um estúdio improvisado, onde ela frequentemente dorme enquanto trabalha. Ela também sofre de bulimia, que esconde de Chihiro. No início do filme, ela recebe um pedido de ilustração onde ela deve retratar Deus — é esta dificuldade de representar, de uma forma totalmente nova, um conceito sem rosto, que vai acompanhá-la durante todo o filme.

As quatro histórias, de início, se desenrolam quase que independentemente umas das outras, exceto por breves momentos onde elas se interseccionam: Toko e Chihiro em casa conversando sobre banalidade; Satoko e Akiyo em Heaven’s Gate. Mas, nos primeiros momentos, cada uma vive sua história sozinha.

O núcleo Satoko, por exemplo, se centra em sua relação com um Deus que, apesar de realizar seus desejos, não a compreende. Quando Satoko pede por um namorado, no dia seguinte, o gerente de Heaven’s Gate começa a dar em cima dela — chegando ao assédio sexual ao tocá-la quando ela não quer. De volta em casa, Satoko pede para que Deus mate o gerente:

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De volta a Heaven’s Gate, o gerente a convida para jantar e diz que está apaixonado por ela. Mais uma vez, Satoko conversa com Deus: “Não precisa matar o gerente. Mas quando eu disse que queria uma namorado, eu não quis dizer qualquer um. Eu queria gostar de alguém e que, por milagre, essa pessoa também gostasse de mim.” No fim das contas, depois de uma tentativa de estupro, Satoko pede mais uma vez para que Deus mate o gerente. Pouco depois, o gerente, de fato, morre, e Satoko decide se desfazer daquele Deus tão estranho.

Akiyo, por outro lado, têm sua história dividida em duas: de um lado, os abusos que ela sofre dos clientes, e do outro, o amor não correspondido por Kikouchi. Essa relação que ela tem com seu amigo beira a obsessão: Akiyo frequentemente o chama para sair, com a desculpa de que seus pais mandaram legumes que ela não come e que ela vai dá-los a Kikouchi (em seguida, ela sai para comprar os legumes); ela passa frequentemente diante da casa dele apenas para sentir uma proximidade inventada, e em uma dessas noites, ela acaba por vê-lo com sua namorada. Ela atira os legumes no chão. Mais tarde, ela vai encontrá-lo em sua casa, e bêbados, o dois acabam dormindo juntos, o que termina definitivamente a relação.

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Toko divide seus dias entre o trabalho obsessivo de retratar Deus e seu transtorno alimentar. Sua relação com Chihiro — e com tudo o que acontece a seu redor, com exceção de sua arte — é vivida como algo à primeira vista superficial, mas extremamente profundo, uma vez que Toko está sozinha: a morte do hamster de Chihiro, uma carta do ex-namorado de Toko, tudo se torna um trigger para que ela dê vazão à sua bulimia. Ao sair para procurar inspiração, Toko encontra os tomates que Akiyo atirou na rua, leva um deles para casa e finalmente consegue concluir sua ilustração e entregá-la a seus contratantes. Porém, pouco depois, ela é chamada à redação para que faça uma nova ilustração (a outra tendo sido perdida em um táxi, metrô ou algo que o valha). O descaso com que os redatores tratam seu trabalho a quebra em duas.

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Toko, ao lado do desenho de Deus.

Chihiro, finalmente, tem seu coração quebrado pelo que parece ser a enésima vez. O homem com quem ela tinha uma relação parece não querer mais do que uma relação sexual casual, enquanto ela se preparar para um possível casamento. Em uma das noites em que eles se encontram, após fazerem sexo, ela se preparar para cozinhar para ele e passar a noite em seu apartamento, e é rejeitada: ele pede que ela se vá. Ela tenta não dar a isso muita atenção, mas quando percebe que ele realmente tenta se afastar dela, ela vai encontrá-lo no trabalho para pedir explicações. Depois de muito insistir, ela consegue fazer com que ele admita que não quer mais vê-la.

A partir dessas rupturas — Akiyo descobrindo a namorada de Kikouchi, Satoko desistindo de Deus, Toko perdendo seu desenho e Chihiro sendo rejeitada —, as quatro mulheres acabam por se aproximar. Após um desentendimento, Chihiro descobre a bulimia de Toko e aproxima-se dela com uma afeição maternal.

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Toko, assim, recebe a atenção e a proximidade com outra pessoa que seu transtorno alimentar a impediram de ter, e Chihiro é capaz de dedicar-se a outra pessoa que não um namorado. Akiyo e Satoko começam também uma amizade: Satoko leva Akiyo para conhecer sua mãe (numa clínica de repouso), e ambas começam a se abrir mais uma para a outra. Akiyo descobre-se grávida de Kikouchi, e sua vida ganha um novo sentido.

O filme termina com o encontro das quatro personagens, longe de Toquio. Akiyo decide se mudar para uma cidade litorânea, onde poderá criar seu filho com maior tranquilidade; ela convida Satoko para uma visita e quando as duas se encontram, num parque de diversões ao lado da praia, Satoko tem um novo emprego, num restaurante chinês, e Akiyo finalmente consegue articular as duas partes de sua personalidade: ela não é nem a escort sexy de Heaven’s Gate e nem a amiga geek de Kikouchi, mas ela mesma, pela primeira vez. Chihiro e Toko também estão lá, depois dos conflitos em Toquio, as duas se encontram na praia para comer o bolo de morango que não havia comido no aniversário de Chihiro, pela primeira vendo-se como amigas e não somente como roommates. Diante do mar, Chihiro tira da bolsa um pequeno frasco contendo suas lágrimas, e as despeja no mar.

Captura de Tela 2015-02-21 às 15.56.58Um pouco adiante, na mesma praia, Satoko dá a Akiyo dois presentes: “Deus” — que Akiyo imediatamente atira no mar, dizendo que não precisa dele — e um quadro: o Deus de Toko. De longe, Toko vê sua ilustração e ela e Chihiro correm para encontrar Satoko e Akiyo. Strawberry Shortcakes termina momentos antes desse encontro.

A idéia de Deus, como se viu, é bastante presente durante o filme, como se ela se apresentasse sob diversas formas: no meio de uma conversa, num quadro ou mesmo numa pedra. O filme brinca com essa noção de presença e ausência, deixando a questão eterna sobre a existência de Deus e a capacidade do indivíduo de criar seu próprio destino. Os conflitos são parcialmente resolvidos por conta de acasos — que podem, ou não, ser atribuídos a uma intervenção divina, a pequenos milagres. Nenhuma das resoluções é planejada pelas personagens, como se alguém, olhando por elas, criasse um número de situações para que os conflitos sejam resolvidos: Akiyo engravida sem querer, o gerente de Heaven’s Gate morre como por milagre e é também por acaso que Satoko encontra seu novo emprego, assim como a descoberta do transtorno alimentar de Toko, que é o que cria entre ela e Chihiro uma amizade, também não é planejado. Mesmo quando Akiyo rejeita Deus, atirando a pedra no mar, ela o aceita sem perceber, na forma do quadro.

Esse filme me lembra muito uma frase que vi em algum lugar — provavelmente em algum Tumblr — que dizia que “o não de Deus não é uma rejeição, mas uma reorientação”. Quando nenhuma das personagens consegue o que quer, elas conseguem o que precisam — o que nem sabiam que precisavam — para sobreviver: um aprendizado importante, uma nova chance ou simplesmente a percepção de uma força interior que elas não sabiam que tinham. Dentro de cada núcleo, que lida com questões bastante comuns, um milagre acontece de forma tão imperceptível que é preciso olhar de fora para vê-los: as personagens vivem esses milagres sem percebê-los, sem se dar conta da possível presença de alguém que olha por elas. Independente da sua visão sobre o assunto, Strawberry Shortcakes é um filme incrível, e muito mais profundo do que parece à primeira vista — e que vale muito a pena ser visto!

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