(muitos, muitos spoilers)

Olha, eu gosto muito de « cinema LGBT ». Ainda que eu seja cis e hétero (e é aliás tendo isso em mente que eu critico Une Nouvelle Amie), eu gosto MUITO de filmes que ousam mostrar que existe vida além do cissexismo heterossexual, que sabem que representatividade é importante, que se esforçam para retratar outras orientações sexuais com respeito e dignidade, sem qualquer julgamento de valor inútil. Infelizmente, Une Nouvelle Amie, o último filme de François Ozon, não é assim.

Tudo nesse filme está errado. A impressão que eu e minhas amigas tivemos foi que Ozon viu que Azul É a Cor Mais Quente ganhou a Palme d’Or e quis fazer igual, só que ~mais subversivo~, i.e. trocando lésbicas por um personagem transgênero. Mas vamos lá.

O filme começa com uma sequência de uma mulher sendo maquiada e colocada num vestido de noiva e, posteriormente, em um caixão. Ela se chama Laura (Isild Le Besco). Sua melhor amiga, Claire (Anais Demoustier), faz um discurso em seu funeral em meio a um flashback extremamente simplista da vida que levaram juntas: o primeiro encontro na escola, as festas na adolescência, as desilusões com amores, os casamentos das duas, o nascimento da filha de Laura e logo depois, sua estadia no hospital.

une_nouvelle_amie_photo_1

Tipo Up!, mas sem carisma

De luto, Claire tenta levar sua vida normalmente, mas não consegue. Ela tira uma semana de férias do trabalho e, por sugestão de seu marido, Gilles (Raphael Personnaz), resolve ir visitar David (Romain Duris), o viúvo de Laura. Ninguém atende à campainha e, como é tão normal de se fazer, Claire entra na casa para descobrir David vestido de mulher, ninando sua filha.

A reação de Claire é a pior possível. Primeiro ela tenta ir embora, mas como David insiste que ela fique, para « explicar » o que está acontecendo, ela se senta e espera. David diz a ela que Laura sabia e aceitava que ele se vestisse de mulher, com a condição de nunca fazê-lo em público. Ele tenta explicar que, quando sua esposa estava viva, ele não sentia vontade de se vestir de mulher, mas que, agora, usar suas roupas faz com que ele sinta que ela ainda está por perto. A criança precisa de uma figura materna, ele diz.

Une-nouvelle-amie-1280X640_scalewidth_714

Laura? É você?

Nisto está o primeiro grande erro do filme: querer inventar uma explicação para algo que não precisa ser explicado. Ao justificar a vontade de David de se vestir de mulher como sendo uma forma de lidar com o luto, ele automaticamente transforma David em um caso patológico. Claire termina por dizer que ele é um pervertido e um doente, e se vai.

Ao voltar para casa, ela diz a Gilles que foi encontrar uma « amiga do colégio » com quem ela não falava há muito tempo, e fica por isso. Ele diz que convidou David para um jantar num restaurante, e eles vão juntos, mas não sem uma pequena cena onde Claire passa batom nela e em Gilles e que só Ozon sabe pra serve. À mesa, ambos Claire e David agem como se nada tivesse acontecido, mas quando Gilles vai ao banheiro, David diz que precisa da presença dela, e que quer que ela o acompanhe ao shopping para comprar mais roupas de mulher. É também nesse momento em que Claire decide chamá-lo de Virginia (porque agora magicamente ela resolveu aceitar que ele seja trans: personagens bem escritos, sabe como é).

Ao voltar para casa, primeira cena de sexo inútil: Claire, normalmente desinteressada, se mostra dominante e só ela tem um orgasmo. De novo, apenas Ozon sabe pra serve esta cena.

No dia seguinte, David —  Virginia  — e Claire vão às compras. Ao invés de mostrar qualquer espécie de compreensão ou respeito, Claire passa a maior parte do tempo colocando-a em situações embaraçosas (forçando-o a fazer uma voz feminina diante dos outros), acusando-a de se deixar tocar por um homem no cinema e zombando dela. Ainda assim, Virginia não reclama e tem um atitude positiva: ela vê, nessa amizade, sua única chance de ser quem ela realmente é, e convida Claire para passar o fim de semana na casa de campo onde ela e Laura cresceram.

Une-Nouvelle-Amie-VF_reference-558x301

infelizmente não achei nenhuma foto da Virginia ):

Claire diz a seu marido que tem de visitar sua mãe doente e parte com Virginia. Na casa, as duas se vestem e maquiam e depilam juntas, vão visitar o túmulo de Laura (de quem eles mal parecem se lembrar, na real — tanto que diante do túmulo, o único diálogo é Virginia dizendo que « as meninas nascem de flores, os meninos nascem de couves; eu nasci de uma couve-flor ») e saem juntas para ir à uma boate gay.

Vou admitir que essa é a única parte que eu gostei, ainda que seja um pouco clichê — ao ver a performance de uma mulher trans no palco, cantando Une Femme Avec Toi, de Nicole Croisille, Virginia dá um grande passo em direção de sua auto-aceitação. Ela se sente representada, aceita, normal. Sem surpresas, a próxima cena já estraga tudo: no carro, voltando para a casa de campo, Virginia conta a Claire que foi ela quem vestiu Laura de noiva para seu funeral, entre cenas quase necrófilas de David acariciando o corpo inerte de sua mulher, e que foi a partir desse momento que ele quis voltar a se vestir de mulher.

Mais uma cena de sexo sem sentido se faz presente: Claire sonha que Laura a acaricia. Enquanto esse momento poderia significar que a relação entre as duas era mais do que a da simples amizade, o filme não desenvolve essa possibilidade e tudo fica por isso mesmo.

No dia seguinte, Claire descobre que seu marido ligou para sua mãe e que sabe que ela não passou o fim de semana lá. Ao voltar para casa, ao invés de contar a verdade, ela resolve dizer que David descobriu que é gay e que precisava de alguém para conversar. Mais tarde, quando Virginia pergunta a ela o motivo de ter dito isto, ela solta « porque é melhor que ele pense que você é homo do que traveco ».

Não.

Não.

NÃO, ok?

Enquanto dá pra argumentar que Ozon (que foi quem escreveu o roteiro) tem licença poética para usar esse tipo de termo extremamente ofensivo, afinal ele apenas queria mostrar como essa linguagem discriminatória é negativa, eu realmente acho que não é o caso. Virginia não reage quando Claire a chama de traveco (ugh). Ela não explica que esse termo é ofensivo, ela nem mesmo fica ofendida. O uso do termo não é uma crítica ao termo (e à estigmatização por trás dele), mas uma normalização da discriminação.

Fica a dica, Ozon.

Eu queria que essa fosse a pior parte do filme, mas não é. Depois disso, Claire chama David para um jantar em sua casa, para provar a seu marido que ele é gay. David faz seu papel, dizendo a Gilles que « descobriu do nada » sua homossexualidade e que está indo a uma psicóloga. Claire fica perturbada com isso e, por algum motivo, briga com David, diz mais uma vez que ele é doente e que não quer mais vê-lo.

une_nouvelle_amie_photo_3

bonitinha, mas egocêntrica, incompreensiva, controladora, instável e psicótica

Claire volta a ficar deprimida e sozinha. Num fim de semana, no clube de tênis com seu marido, ela vê David. Ele se aproxima, os três jogam tênis juntos e ela pergunta o motivo dele ter parado de ligar.

b-what

poxa, não sei, Claire, TALVEZ PORQUE VOCE GRITOU COMIGO E DEIXOU BEM CLARO QUE NÃO QUERIA MAIS ME VER.

Claire diz a David que sente falta de Virginia e que eles devem voltar a ser amigas. Após o jogo, mais uma cena de sexo sem sentido: Claire entra no vestiário masculino e vê David e Gilles fazendo sexo no chuveiro. « Como assim? », você me pergunta. « O filme não fez nenhuma menção ao fato da possível homossexualidade de Gilles até agora, como foi que isso aconteceu? ». Pois é, na verdade não aconteceu. Claire apenas sonhou isso. Não que isso ajude a trama, não que faça algum sentido, não que esse assunto vá ser desenvolvido. Mas, nesse ponto do filme, você já sabe,  como eu sei, que muitas coisas acontecem apenas ~porque sim~.

Gilles e David saem do vestiário, David esqueceu sua raquete e ele volta para buscá-la. Lá, ele e Claire se beijam. Porque sim. Não pergunte. Claire se desvencilha dele e vai embora com seu marido.

No dia seguinte, no trabalho, Claire recebe uma mensagem de Virginia pedindo para que a encontre no Hotel Virginia (sacou sacou sacou?), para fazerem as pazes. Ela chega lá, Virginia pede desculpas e diz que está apaixonada por Claire. Mais uma vez: porque sim. Ela diz também que sabe que Claire sente o mesmo e basicamente a chama para consumar o ato, para que ela se sinta uma « verdadeira mulher ». Porque sim. Claire aceita a proposta, as duas vão até o quarto e começam a fazer sexo até que: opa! Virginia tem uma ereção, o que faz com que Claire saia correndo. Quando Virginia pergunta o que há de errado, ela responde « você é um homem ».

Preciso agradecer mais uma vez a Ozon pelo finíssimo tato. Obrigada por toda essa cena. Obrigada por dar a entender que mulheres trans não-operadas não são mulheres de verdade. Obrigada por humilhar tantas vezes sua personagem trans. Obrigada. Sério.

Claire volta para seu trabalho e, da janela, vê Virginia saindo do hotel. E então o improvável acontece: ela é atropelada e entra em coma. Calma, eu sei. Eu sei. Mas vai ficar pior. Claire e seu marido são chamados ao hospital pelos sogros de David, que dizem que ele foi encontrado vestido de mulher. O sogro, um velhinho, diz « eu achei que ele talvez estivesse indo a uma baile à fantasia ». Que ótimo momento pra tentar arrancar uma risada da platéia. Enfim: Claire e Gilles se propõem a tomar conta da filha de David enquanto ele está em coma, Claire entra em depressão mais uma vez e vai visitar David no hospital.

Eu sei que você acha que esse filme não pode ficar pior. Mas fica. No hospital, Claire é encorajada a conversar com David, porque isso pode ajudar a fazê-lo voltar do coma. Ela conversa com ele (não se atreva a pensar em Fale Com Ela), da maneira mais atrapalhada possível, e quando ela chama por Virginia, ele abre os olhos. Sério mesmo. Claire chama a enfermeira, mas quando elas voltam ao quarto, David continua desacordado.

Ela vai então até a casa de David, pega suas roupas e maquiagens, volta ao hospital e o veste de Virginia, enquanto canta Une Femme Avec Toi (ok, essa parte é bonitinha). Ela faz com que ela fique sentada — uma PÉSSIMA IDÉIA em termos de pressão arterial — e assim que termina de maquiá-la, ela volta do coma. Assim mesmo: do nada, através do Poder Mágico do Makeover, uma pessoa em coma volta à vida. Porque sim.

283440

A última cena acontece sete anos depois, com Virginia e Claire indo buscar a criança na escola. As três andam de mãos dadas ao sol. E fim. Ah, você tem perguntas? Você quer saber se no fim das contas elas ficaram juntas, dado a possível homossexualidade de ambas? Você quer saber se, pelo contrário, Claire continuou com seu marido e ela e Virginia são apenas amigas? Você quer saber se Virginia decidiu definitivamente ser Virginia ou se ocasionalmente ela ainda é David? Você quer saber qual foi o intuito do filme? Que pena.

Une Nouvelle Amie é o pior filme sobre transexualidade que eu já vi na minha vida. Aliás, um dos piores filmes que eu já vi na minha vida at all. Até Priscilla, A Rainha do Deserto tem mais sensibilidade pra tratar da questão. E enquanto os créditos rolavam, fiquei sem entender o que exatamente Ozon quis, com esse filme. Une Nouvelle Amie não questiona a sexualidade como construção social como o faz XXY, não mostra as dificuldades pelas quais passa uma pessoa trans (em termos de relacionamentos, por exemplo), como o faz Hedwig and The Angry Inch, e nem chega perto de abordar a relação familiar com um parente trans como Transamerica. Tudo o que ele faz é simplificar a questão e adicionar elementos completamente nada a ver, só pelo choque. Nada nesse filme convence. Claire não convence, David/Virginia não convence, Gilles não convence.

O máximo que consigo retirar da narrativa toda é: Claire era apaixonada por Laura e, quando descobre que David é trans, ela se apaixona por ele também, o que possivelmente significa que, ao ajudar David a se tornar quem ele realmente é, ela acabe por se encontrar também. Talvez seja uma forma de dizer que toda sexualidade é fluída e que muitas pessoas aceitam a heterossexualidade passivamente sem coragem ou interesse de assumir o que elas realmente sentem. Quem sabe? O problema é que Ozon não aborda essas questões de uma maneira coerente, e ele reproduz tantos clichês, faz tantas escolhas infelizes, que mesmo se essa for mesmo a mensagem, ela se perde facilmente no contexto.

Eu não sei nem pra quem ele escreveu esse filme — definitivamente não para uma audiência adulta, capaz de compreender questões delicadas sobre sexualidade, e obviamente não para crianças porque há muitas cenas de sexo e nudez. Provavelmente — e infelizmente — o filme foi direcionado para a platéia mais conservadora (presente, aliás, na sessão em que eu fui) que se contenta em rir do palhaço maquiado na tela, sem questionar nada, sem saber que o palhaço é ela mesma. Ridi, pagliaccio.

%d blogueiros gostam disto: