The-Lego-Movie

Recentemente, durante uma entrevista à BBC, Phil Lord e Christopher Miller – os roteiristas do primeiro e do próximo LEGO MOVIE contaram um pouco mais sobre a sequência que está prevista para estreiar em 2018.

“É importante par nós que o filme atinja muitas pessoas, e que inspire jovens mulheres tanto quanto nós inspiramos jovens homens […] Você pode sentir que toda a cultura cinematográfica está começando a acordar para o fato de que metade da sua audiência é de mulheres […] Frozen é um reflexo disso – e eu acho que nós todos vamos encontrar um novo florescer de diretoras de cinema e de assuntos relacionados no futuro.”

 Eles falaram também sobre a quantidade de personagens femininas no próximo filme:

“Eu não quero contar spoilers, mas vamos ter mais personagens femininas e mais “coisas femininas”[…] Tem havido uma falta de [protagonistas femininas] em anos recentes e eu acho que será bastante diferente no futuro próximo.”

Por mais que MAIS PERSONAGENS FEMININAS me anime profundamente, eu não consigo não me preocupar com o conteúdo dessa entrevista, e o que ela pode significar para o filme.

Tem algo que eu noto muito constantemente nas entrevistas sobre o papel da mulher na indústria cinematográfica que me incomoda. Toda vez que se fala em mais protagonistas, mais personagens ou mais diretoras e outros cargos por trás das câmeras, ou mesmo mulheres como parte do público, sempre há um tom de “elas estão se interessando, elas estão finalmente se envolvendo com isso”. É como se até hoje nenhuma mulher tivesse se interessado por cinema, ou que a gente nunca quis trabalhar com isso antes. Vamos deixar uma coisa bem clara: nós estamos mais presentes hoje porque gritamos mais alto, à ponto de caras da indústria não conseguirem mais fingir que não nos vêm ou escutam. Não tem nada de florescer (e, porra, eu odeio esse termo), tem de exigirmos o espaço que nunca foi nos dado por razões de: machismo.

Ele completa:

”[…] Tem havido uma falta de [protagonistas femininas] em anos recentes”

Acho que a gente anda acompanhando a indústria cinematográfica de realidades diferentes, porque, colega, não é só em anos recentes que o número de protagonistas femininas é imensamente menor do que o de caras.

Eu adorei LEGO Movie, mas ele possui uns problemas meio complicados no que diz respeito a mulheres. E por mais que eu tenha brincado loucamente quando criança com os bloquinhos, a empresa em si adotou um viés muito sexista nos últimos 20 anos, centrando praticamente toda sua propaganda em torno de garotos. Quando eles se deram conta que existia uma parcela muito pouco contente com essa virada, eles soltaram isso:

 lego friends

Muitos de vocês já devem ter visto destas imagem:

91

É de uma propaganda dos anos 80, com meninas muito felizes por causa de Lego. Uma delas construiu um avião. UM AVIAO. Pode parecer besteira, mas nessa propaganda dá-se uma amplitude gigante para o que uma menina pode fazer, enquanto naquela monstruosidade lilás ela só tem uma escolha: ser uma “menininha feminina que obviamente só quer saber de amizades e coisas fofas. Pff, pra que construir prédios e usar a imaginação”. ¬¬ Empoderar meninas através da imaginação é uma das formas mais legais que a LEGO pode ajudar a combater essa visão misógina que ela mesma ajudou a propagar durante tantos anos. É triste ver essa mudança de visão e de abordagem sobre o mundo feminino infantil da empresa.

lego-for-girls

Not.

Então quando escuto que os roteiristas do filme utilizarem “coisas de femininas”, eu lembro do final do filme, quando os “legos” da irmãzinha aparecem para destruir tudo, já que, como é mundialmente sabido, garotas estragam toda a diversão. ¬¬ Tenho certeza que o filme vai ser tão divertido quanto este primeiro, mas não posso evitar a preocupação de que essa visão binária – e sexista –  do que são “coisas de garotos” e “coisas de garotas” acabe estragando essa promessa de mais personagens femininas

Só pra deixar muito claro, caso ainda não tenha ficado, eu também gostava de montar prédios, fingir que o meu boneco de lego era o Batman (eram os anos 90, eu não tinha o boneco do Batman) e explodir espaçonaves feitas de blocos de plástico. 😉

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