Como sabemos semana passada a lista de indicados ao Oscar desse ano foi divulgada, e pelo segundo ano consecutivo nenhum negro foi indicado, em nenhuma categoria. Quando conferi a lista, identifiquei logo a ausência de negros entre os indicados, e pensei: Hollywhite ignorando pessoas negras? *Disapointed but not surprised*

Assim que a lista foi divulgada, a campanha #OscarsSoWhite entrou nos treeding topics no twitter, e na última segunda-feira o diretor Spike Lee e Jada Pinkett Smith divulgaram que vão fazer boicote ao Oscar, Will Smith falou que vai boicotar também. E eu, Rafaela Lopes, que desde 2006 ou 2007 cheguei a perder aulas na segunda-feira pós-Oscars assistindo ao prêmio, resolvi fazer o mesmo pois antes de ser amante de cinema, e aspirante a cineasta  sou mulher e negra.

Em resposta as campanhas muita gente branca, ou contra o boicote do Oscar argumentou que “O Oscar é mesmo um prêmio injusto”, “Não é parâmetro para talento”, “Se estão achando ruim, criem seus próprios prêmios”, “Já ouviram falar em mérito?”, e o mais bizarro “Chineses não estão reclamando por não terem sido indicados”.  É inegável que o Oscar é um prêmio injusto e contraditório, não é necessário citar casos recentes, ou antigos pra constatar prêmios entregues a filmes/atores/atrizes “mais ou menos” que nem deveriam ter disputado. Mas não só concorreram ao prêmio como também levaram, e em cima de gente muito mais talentosa.

Crítica "combo", por Ribs

Crítica “combo”, por Ribs

Sim, nós negros poderíamos criar prêmios para nós mesmos, e na verdade eles já existem, mas a questão é: O Oscar é a premiação mais importante do mundo, porque digo isso com tanta certeza? O Oscar é constantemente usado como referência para outras premiações, quando alguém quer explicar o Grammy fala que é o “Oscar da música”, premiações importantes de futebol que eu não sei o nome? “Oscar do futebol” César? “Oscar francês”. Emmy, Palma de Ouro, Cannes, e outros existem, mas o Oscar é o mais importante.

Levando a importância do Oscar em consideração, apenas quatorze negros ganharam o Oscar em 88 edições, apenas 7, SETE mulheres negras ganharam Oscars, apenas uma pelo papel de melhor atriz principal, as outras  ganharam por papéis de coadjuvantes. É notável que existem os tipo de filmes “favoritos” que concorrem ao Oscars: filmes sobre personagens históricos, filmes que tenham homens como protagonistas (brancos, é claro), e nos últimos anos filmes com Bradley Cooper e Jennifer Lawrence.  Também existem os tipos de filmes/papéis “favoritos” para atores negros concorrerem a um Oscar, vou enfatizar os papéis femininos: mãe abusiva, empregada ou babá, e é claro escravas (nossa, um pouco de historicidade aqui).

Faltou a Jennifer Hudson nessa imagem, que ganhou o Oscar por interpretar uma cantora.

Faltou a Jennifer Hudson nessa imagem, que ganhou o Oscar por interpretar uma cantora.

Porque enfatizer? Reforça estereótipos, analisando os vencedores brancos nos últimos anos temos: professoras (Para Sempre Alice, e Boyhood), personagens históricos (O Discurso do Rei, Dama de Ferro, A Teoria de Tudo), bailarinas (Cisne Negro), escritoras (As Horas), cantoras (Johny e June, Piaf – Um hino ao amor). Enfim, pessoas comuns, com carreiras comuns, e quando não, pessoas que tem peso historicamente, enquanto isso as mulheres negras ficam num padrão estereotipado, nós não podemos ser professoras? Médicas? Bailarinas? Escritoras? Porque não fazer um filme sobre a Angela Davis ou Rosa Parks? Nós também possuímos personagens históricos.

Os homens negros por sua vez possuem um pouco mais de “sorte”, os atores nominados com Oscars foram por papéis de policiais, atletas, e personagens históricos (O último rei da Escócia, Ray). Não que policiais e atletas não sejam papéis estereotipados, mas com certeza são melhores que mães abusivas e empregadas. E falando de personagens históricos ano passado havia uma grande expectativa em relação ao desempenho de David Oyelowo como Martin Luther King em Selma, mas o ator nem mesmo foi indicado.

O mesmo aconteceu com a diretora do filme, Ava DuVernay que não foi indicada na categoria Diretor, embora o filme tenha sido indicado na categoria melhor filme, sendo que os indicados por melhor filme, quase sempre são indicados por melhor Diretor também. Mas preciso lembrar que durante 88 anos de existência do prêmio, apenas uma mulher, UMA foi nominada com o prêmio de melhor diretora. Então, imagina só, indicar uma mulher como diretora? E pior negra? É claro que a comissão de 94% homens brancos da Academia não deixaria isso acontecer.

Não estamos cobrando representatividade no Oscar para interpretações ruins, muito pelo contrário, ninguém quer Oscars injustos com concorrentes muito melhores, como aconteceu com c e r t o s atores e atrizes. A questão é que tanto ano passado, quanto esse ano atores negros interpretaram papéis de peso, aclamados pela critica, Michael B Jordan (Creed), Will Smith (Um Homem entre Gigantes) Idris Elba (Beasts of Nation), mas quando a lista saiu, o nome de nenhum deles estava lá. Em compensação um homem cisgênero sendo indicado por interpretar uma mulher, se fez presente. Aqui não se trata de um papel que não existe, como pontuou muito bem Viola Davis no seu discurso do Emmy (como os negros vão ganhar prêmios, se não contratam negros?), se trata de uma enorme negligência por parte da Academia.

Depois de toda a polêmica, a presidente da Academia Cheryl Boone Isaacs (primeira mulher negra a presidir), publicou uma carta dizendo que a banca julgadora será reestruturada, para tentar trazer mais representatividade e diversidade ao prêmio. Eu realmente espero que isso aconteça, porque enquanto o Oscar continuar a ser esse prêmio racista e machista, que só reforça estereótipos  eu vou boicota-lo.

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