Um desses dias, eu estava fazendo uma lista — porque poxa vida, como eu gosto de listas. Em matéria de listas eu sou quase uma Sei Shonagon moderna, minhas favoritas (de minha excelentíssima autoria) sendo a “Lista de coisas sobre as quais ninguém mente” e a “Lista de coisas invisíveis”.

Mas enfim, estava escrevendo uma lista muito saudável das coisas das quais eu mais tenho medo. E “ser feia” foi um dos primeiros itens que apareceram, antes mesmo de “ser abduzida por extraterrestres”, que é a coisa que mais me aterroriza no universo inteiro. Fiquei pensando nisso um bom tempo. Depois, as questões vieram: por que eu tenho tanto medo de ser feia? Por que isso tem que ser tão importante? Por que eu não me permito ser feia, terrivelmente feia?

Quando se é mulher, ser feia é um insulto. Não um insulto a si mesma, mas um insulto dirigido para fora, quase uma transgressão gravíssima de regra moral. Simplesmente porque, na atual conjuntura das coisas, mulheres ainda são vistas como um objeto a ser contemplado, ou usado de diversas maneiras. O corpo feminino é um campo de batalha para o prazer alheio — nesse universo, ser feia não te salva da condição de objeto sexual, apenas te torna um objeto sexual ruim, sem razão de ser, como se todo o seu valor girasse em torno de somente uma variável: sua atratividade.

A beleza como imposição, como obrigação, é algo tão forte e que começa tão cedo, que é muito difícil dar um passo para trás e conseguir ver o quadro das construções sociais com a distância necessária à crítica. Até lá, essa imposição já foi interiorizada.

Quando Émile Durkheim explica os efeitos da socialização (um aprendizado de normas e valores que se faz através da família e das instituições sociais visando integrar o indivíduo à sociedade), ele diz que, num primeiro momento, o contato do indivíduo com essas normas é sentido como coerção. O indivíduo se revolta contra essas regras, tenta infringi-las. Porém, conforme elas são reforçadas, ele acaba por interiorizá-las, fazendo com que ele o próprio indivíduo cuide para que ele não cometa infrações. Ele mesmo está em constante estado de vigia de seus atos.

A mensagem é clara, e vem de todos os lados: mulher não pode ser feia, não pode ser gorda, nem magra demais, não pode ser descuidada, não pode ter cabelo branco, olha quanto desleixo, não chora porque é feio, não senta assim porque é feio, não faz isso, não faz aquilo, é tudo feio, feio, feio. E a mensagem é interiorizada, assimilada, fazendo com que a própria mulher se torne um vigia da beleza — policiando a si mesma tanto quanto a outras mulheres.

Margaret Atwood, em seu livro “The Robber Bride”, explica melhor:
Fantasias masculinas, fantasias masculina, será que tudo é dominado por fantasias masculinas? Em cima de um pedestal ou caída de joelhos, tudo é uma fantasia masculina: que você é forte o bastante pra aguentar o que eles te impõem, ou então frágil demais para resistir. Mesmo fingir que você não se importa com fantasias masculinas é uma fantasia masculina: fingir que você não está sendo vista, fingir que você tem uma vida própria, que você pode lavar seus pés e escovar seus cabelos inconsciente do observador onipresente olhando através do buraco da fechadura dentro da sua própria cabeça, senão em outro lugar. Você é uma mulher com um homem dentro que olha uma mulher. Você é seu próprio voyeur.”

E isso, cara, além de fazer com que uma pessoa fique totalmente paranóica, é muito contra-produtivo.

Na série de documentários sobre a influência da publicidade na auto-imagem feminina, “Killing Us Softly”, Jean Kilbourne diz que, em média, a cada 30 segundos as mulheres tem pensamentos intrusivos sobre sua própria aparência, principalmente quando em público. Elas literalmente se observam “de fora”, se policiando. Dessa forma, ela diz, é muito mais difícil manter uma linha de raciocínio, pensar profundamente sobre alguma questão.

Meghan Ramsey, em “Why Thinking You’re Ugly is Bad for You”, explica que muitas adolescentes deixam de dar suas opiniões e participar em discussões na sala de aula, porque se sentem feias — não querem atrair atenção para si mesmas, e isso acaba comprometendo seu aprendizado.

Não tem nada de errado em querer ser bonita, em querer se sentir bem consigo mesma, mas o importante é desconstruir essa idéia de que ser bonita deve ser a grande aspiração da vida de toda mulher, ou de que a beleza é seu “passaporte” para o mundo — sem o qual você não pode entrar, não pode participar.

Beleza não é um imposto que você tem de pagar por ser mulher.

Você não é um vaso de ikebana na mesinha do centro, meramente ornamental.

O seu corpo é um instrumento maravilhoso de interação e transformação do mundo. A beleza dele é intrínseca, indissociável das experiências que ele te permite, das sensações que ele proporciona. Não tem nada a ver com simetria, com medidas, com a ciência infrutífera da “beleza” enquanto conceito e obrigação.

Dito isto, vou ali continuar sendo feia e feliz. E deixo no finalzinho desse texto cheio de referências, uma última, toda bonitinha:

I’ve got a perfect body,
but sometimes I forget.
I got a perfect body,
cause my eyelashes catch my sweat, yes they do!”.

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