Estava lendo, essa semana, alguns livros e artigos pro meu projeto de TCC — meu tema é a representação das mulheres negras no cinema americano — e encontrei um artigo muito interessante da bell hooks (por quem eu estou totalmente apaixonada), que me fez questionar algumas coisas sobre o feminismo.

O artigo, que se chama Revolutionary Black Women, fala sobre a dificuldade que existe, no feminismo, em aceitar experiências diferentes daquelas vividas pela maioria. Quando fala disso, hooks está especificamente falando sobre o feminismo negro, mas eu acho que isso é uma questão importante a ser discutida em todo âmbito do feminismo — especialmente no que concerne a divisão entre feminismo (“neutro”, ou seja, branco) e feminismo negro.

Como diz bell hooks, é preciso aceitar que nem todo mundo tem a mesma experiência. Todas as mulheres devem ser ouvidas, devem se sentir confortáveis para falar de suas experiências (positivas ou negativas) sem que medo de repressão por parte de outras mulheres. Sim, isso existe, e muito. Há um grande número de feministas brancas que ainda acredita que o feminismo deve se centrar apenas em questões ligadas ao gênero, sexo e sexualidade, e isso é um problema bem grande.

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amor verdadeiro amor eterno por essa mulher <3

No caso das mulheres negras (e de mulheres de outras raças que são vítimas de racismo, ainda que em menor escala), a questão do machismo está intimamente ligada à questão do racismo. Elas experimentam essa dupla discriminação simultaneamente, de forma que dissociar uma coisa da outra não é somente impossível, mas anti-ético. E, infelizmente, muitas vezes elas não encontram no seio do feminismo o suporte necessário para lidar com essas questões.

Quero deixar claro que não acredito que as feministas brancas devam “abrir espaço” para as feministas negras. Não se trata de deixá-las entrar no “nosso” clubinho, até porque as mulheres negras não precisam de nós para salvá-las. Mas acredito que nós devemos tomar essas questões ligadas à discriminação racial como sendo também nossas, como aliadas,  mesmo que não sejamos vítimas do racismo. Acho que a partir do momento em que o feminismo se apresenta como uma causa centrada em criar um espaço social de igualdade e segurança para mulheres, ele assume automaticamente um compromisso com todas as mulheres (e, em segundo plano, com homens também, já que sabemos que o machismo tem efeitos negativos sobre todas as pessoas).

Dessa forma, a partir do momento em que uma mulher, ou um grupo de mulheres, encontra qualquer tipo de discriminação, essa questão deve se tornar uma importante para todas nós. Esse é o princípio da sororidade, no fim das contas. Nos importar somente com aquilo que nos afeta não é somente egoísta, mas também anti-feminista.

Em tudo isso, é preciso tomar cuidado para não ver a questão de forma paternalista. Como já disse, as mulheres negras não precisam ser salvas pelas feministas brancas. Mas é impossível nos considerar feministas se não nos preocuparmos com as questões adjacentes — não apenas o racismo, mas também a homofobia, a transfobia, assim como outras questões de ordem social. Aceitar a experiência alheia não invalida nossa própria experiência, muito pelo contrário: aceitar que cada um tem sua própria experiência e que essa experiência é e deve ser vista como legítima apenas faz com que a luta se torne mais ampla, mais inclusiva e mais real.

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