Hoje pela manhã, enquanto me arrumava para ir à Comic Con, eu estava sentada na mesa da sala sofrendo com a caneta
delineadora na mão. Só quem já passou delineador sabe o quão difícil é acertar o desenho em um dos olhos – quem dirá acertar os dois e iguais! Enquanto fazia o desenho brinquei com o Carlos dizendo que se eu pudesse viajar no tempo eu voltaria até o desgraçado que inventou o bendito delineador e acabaria com ele e, por consequência, com o patriarcado. Nós rimos e eu continuei me maquiando.
Aqui em casa é bastante claro o quão diferente é o modo como homens e mulheres “precisam” se apresentar na sociedade. Claro, eu não sou obrigada a passar o delineador para ir na Comic Con, mas é um conceito de beleza que está intrínseco dentro de mim. Eu me olho no espelho de corretivo ao redor dos olhos, delineador e rímel e me acho mais bonita. Fato. O Carlos toma banho, faz a barba, coloca a calça jeans e a camiseta e está pronto. Eu acordo, tomo banho, seco o cabelo, me maqueio, escolho uma roupa que seja confortável e bonita (e nossa, essa é uma combinação difícil), pego a bolsa e estou pronta. O que se espera dos homens é muito diferente do que se espera das mulheres.
Eu tive a sorte de nascer com uma figura física que muita gente considera agradável. Eu nunca me preocupei com excesso de peso, tenho cabelo liso e volumoso, sou branca e tenho a pele relativamente livre de acne. Mas ainda sim eu me submeto a todo um padrão de comportamento para que antes de sair de casa eu esteja, pelo menos, aceitável. No entanto, eu não trabalho na frente das câmeras, eu não faço do meu corpo e da minha beleza o principal chamariz da minha carreira. E eu quero deixar muito claro que esse comentário não é uma crítica a quem usa o corpo e a beleza como carreira, muito pelo contrário.
Muitos sites já falaram sobre isso, muitos blogs e textos foram escritos, mas depois de ver mais uma subcelebridade falar sobre ter “problemas com hidrogel” resolvi fazer esse texto também. Desde a semana passada estamos acompanhando o drama de Andressa Urach com o mau uso do tal Hidrogel. Vi muita gente criticá-la dizendo que a escolha foi dela, ela mentiu para os médicos, ela que gosta de aparecer, gosta de mostrar a bunda, ninguém tem que ter pena dela, ninguém tem nada a ver com isso. Todas essas afirmações parecem fazer sentido num primeiro momento, mas elas não são verdadeiras.
Sim, ela escolheu mentir para o médico e fazer um procedimento muito perigoso. Foi uma escolha estúpida e acho que ninguém discorda do fato. A questão aqui é que ela se sente na necessidade de colocar o Hidrogel pela mesma razão que eu decido passar o delineador todo dia pela manhã: a beleza, seja ela qual for, nunca é suficiente. Não é para mim, para você e, principalmente, para a sociedade. Urach é um símbolo da cultura da sub-celebridade brasileira. Eu não sei nem exatamente porque ela virou uma subcelebridade, tem algo a ver com ser vice ex-miss bumbum, mas isso é reflexo da sociedade em que vivemos. Não basta ser uma pessoa trabalhadora, não basta ser legal ou simpática e talvez até talentosa, nós vivemos num momento em que principalmente a mulher “famosa” precisa estar dentro de um padrão de beleza e atratividade que é muito além do que nós, como humanos, conseguimos.
Então antes de culpá-la e considerá-la estúpida e burra e dizer que ela merece tudo pelo que está passando, abre o teu histórico de internet e vai ver quantas vezes você foi ver a fofoca sobre a vida de alguém. Ou pensa quantas vezes você olhou pra uma outra mulher e disse que a bunda dela era caída, que ela era gorda, feia e tudo mais. Mesmo quando você faz um pequeno comentário sobre a roupa “inadequada” de uma pessoa você está sim contribuindo para que nós mulheres, sub-celebridades ou não, continuemos nos impondo ideais inumanos de beleza. E não, eu não me excluo desse padrão. Eu tento sempre me controlar e lembrar que o que eu considero bonito pode ser diferente do que o outro considera, e que ninguém tem o direito de julgar o outro por ser magro demais, gordo demais, por ter o cabelo cacheado ou liso, por ter a perna musculosa ou a bunda caída.
Para nós, mulheres, um momento como esse não é a hora de apontar dedos e dizer “bem feito”, é de nos unirmos e aprendermos a ter sororidade. Deixa pra sociedade machista essa coisa de jogar mulher contra mulher, a competição feminina só existe dentro da lógica machista, como mulheres nós precisamos nos unir e ajudar, não julgar.
*Este texto antes se referia ao hidrogel como hidromel. Ele foi editado e corrigido. 😉
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