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Eu adoro um livro/série/filme Young Adult. Eu sei que eu passei da idade de YA’s faz uns anos já, mas toda vez que estou precisando esvaziar um pouco a mente acabo correndo para os YA’s de fantasia/ficção científica – adolescentes morrendo de câncer não é algo que me ajuda a acalmar. Se matando em arenas de morte, sim. Quando falo “esvaziar um pouco a mente” não quero de maneira nenhuma desmerecer o gênero – que eu gosto bastante, aliás.

Foi procurando uma pausa que encontrei The 100, a série de televisão do canal americano CW que por aqui acaba de chegar o Netflix e teve a primeira temporada exibida pela MTV Brasil. O seriado possui um número reduzido de episódios (doze na primeira temporada e dezesseis na segunda), um formato originalmente utilizado pela HBO mas que tem se espalhado entre as outras emissoras. Ao meu ver, o formato perfeito, já que elimina os episódios fillers, aqueles que não avançam a história e são só enrolação. Assisti a primeira temporada inteira numa sentada só e, ao mesmo tempo que me preocupei com alguns problemas, fiquei de cara com a qualidade das discussões e com a representação feminina.

Amiga – só tem mina foda nessa série.

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Imagem adaptada de Popsomniacs

YA’s estão constantemente sob ataque dos ávidos defensores da literatura/cinema/televisão “de qualidade”. Hunger Games está aí para dar um haudouken de fogo nesse pessoal – mas para cada Hunger Games existe um filme de Instrumentos Mortais (sobre os quais eu vou falar em uma outra hora – filme e livros, separadamente). A série The 100, na minha opinião, caminha lado a lado com Hunger Games.

Esse é o primeiro texto de uma série de posts para discutir a série. Hoje não tem muitos spoilers, mas os próximos serão mais ~perigosos~.  Prossiga a seu próprio risco. 😉

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A série de livros na qual o seriado de televisão se baseia está sendo escrita por Kass Morgan e possui, até hoje, apenas dois livros The 100 e Day 21. O próximo livro, Homecoming, tem data de lançamento para fevereiro próximo. Pelo que li do primeiro livro a série é bem vagamente baseada na obra original, tendo personagens criados especialmente para ela, e mantendo vivos personagens que estavam mortos nos livros.

Screen Shot 2015-01-04 at 11.00.55 PMNa adaptação da CW, The 100 começa com a humanidade presa dentro de uma grande estação espacial chamada A Arca noventa e sete anos depois do apocalipse nuclear, que resultou na aparente aniquilação da vida na Terra. Na época doze nações possuíam colônias espaciais que se uniram e formaram A Arca num esforço para sobreviver e preservar a vida humana. O plano é esperar a Terra se recuperar e, passados os anos apropriados, retornar ao planeta e iniciar uma nova colonização humana. Mas nem tudo sai de acordo com o planejado.

No espaço, comida e oxigênio são escassos e por isso a sociedade vive num cinto restrito em que todo adulto que comete uma infração – seja qual for, de assassinato à roubar um pouco de comida – é sentenciado a morte. Na série morte significa ser flooded, jogado para fora da estação espacial enquanto sua família observa você ser sugado pelo vácuo espacial. De buenas. Caso o infrator seja um adolescente, ele é sentenciado à prisão até sua maioridade, quando lhe é proporcionada a chance para um novo julgamento.

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Clarke (Eliza Taylor), a protagonista, é uma dessas adolescentes infratoras. Filha de Abby e Jake Griffin, seu pai foi sentenciado à morte por criar um plano para expôr ao resto da nave a falha no sistema que suporta a vida na Estação – que o Chanceler e seus Conselheiros (entre eles Abby, a principal médica da nave) querem manter em segredo. Clarke acaba sendo presa após a morte do pai, pois também tenta liberar para a população a informação sobre a falha no sistema de suporte de vida.

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A série já começa com Clarke sendo jogada dentro de uma nave com outros 99 delinquentes (todos eles moravam no alojamento/prisão), e disparados de volta para Terra, numa tentativa de não apenas descobrir se o planeta já está habitável, como de poupar oxigênio sem condená-los à morte certa. Uma esperança de vida que pode também resultar na morte certa de todos os cem adolescentes.

Ao chegarem na Terra, os delinquentes descobrem que são imunes à radiação do planeta (os anos que a humanidade passou no espaço, exposta à radiação solar mudou seus DNA’s), e que não são os únicos humanos por alí. Diferente do que as pessoas na Arca acreditavam, existe vida humana no planeta – e eles não são amigáveis. Toda a primeira temporada gira em torno da guerra que se estabelece entre os Grounders, como os adolescentes chamam os humanos que moram na Terra, e os Sky People, denominação Grounder para os adolescentes.

Há uma constante discussão no desenvolvimento da história tanto da Estação Espacial, como dos 100’s, sobre o conceito de certo e errado e sobre a tão famosa frase “momentos desesperados requerem medidas desesperadas”. Aquilo que você faz para sobreviver não define quem você realmente é. Ou define? Quão válido é tomar uma decisão que poderá salvar milhares de pessoas mas que custará duzentas ou mesmo apenas uma? Quais são as transformações, os benefícios e os danos pessoais e de grupo que essas decisões causam? A sobrevivência e o legado da humanidade valem o sacrifício de duzentos? Parece, e é, a já tão batida fórmula do sobrevivente, mas The 100 consegue trazer vitalidade e interesse para o gênero com personagens bem construídos, enredo interessante e histórias paralelas apelativas.

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Chanceler Jaha (Isaiah Washington), Conselheiro Kane (Henry Ian Cusick) e Conselheira Abby (Paige Turco)

Os personagens no poder, Chanceler Jaha, Abby e Kane estão constantemente questionando o posicionamento e mesmo ameaçando um ao outro. Esse é um elemento interessante sobre a série, e que ao meu ver adiciona elementos positivos toda vez que uma história desenvolve personagens dessa maneira, ninguém é exatamente aquilo que você acha que eles são ou, pelo menos, todos os personagens estão passivos de transformação para melhor ou pior. A verdade é que ninguém na série é aquele que ele acha que é. Não estamos falando de um nível Game of Thrones, mas essa maleabilidade dos personagens torna os caminhos da série mais interessantes.

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Acho loucas essas fotos de divulgação com as personagens super maquiadas quando na série elas nem estão.

Na Terra, os 100’s além de enfrentar os inimigos externos e as ameaças que o próprio planeta oferece, como a fumaça ácida, precisam também aprender a conviver como um grupo unido e lidar com as ameaças que isso trás. É aí que aparecem e se destacam todo tipo de personalidade, criando dois polos de poder em Clarke e Belamy (Bob Morley). Ela preocupada com a sobrevivência e e em fazer contato com a estação espacial, ele preocupado com a liberdade recém alcançada e em impedir, de todas as maneiras, que o contato seja feito.

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Ou seja, logo de cara adolescentes que nunca sentiram real liberdade, não só por causa da prisão, mas pela vida dentro de um gigante de aço, são presenteados com um mundo novo, todo deles, sem supervisão parental ou política e liderados por um garoto que é a síncope de todas as consequências que um governo autoritário pode causar. Sem Clarke os 100’s parecem estar fadados ao fracasso. Clarke, que lidera uma parte do grupo contra o governo e as sabotagens de Belamy, parece ser justa, honesta e disposta ao sacrifício próprio para que a missão na Terra alcance o sucesso e dê uma chance aos moradores da Estação Espacial de sobreviverem. É nessa dicotomia entre Clarke e Belamy que 100’s acerta de primeira no estabelecer e no desenvolver dos personagens e da comunidade que eles formam. Mas em The 100 nada é para sempre, e a violência do mundo a volta deles vai mudar – e muito – os dois líderes.

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Acima de tudo esse é um grupo de adolescentes que não tem a menor idéia do que estão fazendo e, Clarke e Belamy, por mais bem intencionado que sejam, e por melhor equipados que sejam, estão mais dando chutes do que mirando. A verdade é que tanto o lado pacifista de Clarke, como o violento de Belamy são necessários para a sobrevivência da comunidade. Leva a temporada inteira, mas um equilíbrio entre os dois é formado na tentativa de salvar o grupo das ameaças internas e externas, mas sem torna-los chatos, o que é um feito. Há um arco muito interessante para esses dois personagens que ajuda não só a aprofundar e dar tridimensionalidade, mas procura explorar os conceitos de moral e amoral, certo e errado e questionar o que é sobreviver e até onde cada um deles iria para isso.

Vale lembrar que o canal CW é produtor de séries como Arrow e The Flash que, na minha opinião, são séries muito boas tanto no clima como no roteiro. Em The 100 o canal parece dar um passo além, experimentando uma crueza de temas de forma mais pesada do que nas suas outras produções, e a equipe de direção e roteiro conseguem dar a volta por cima do baixo orçamento da série.

Este post foi originalmente ao ar em 5 de Janeiro de 2015, mas sofreu adaptações e foi repostado no dia 20 de Setembro de 2015.

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