Young Adults são, acima de tudo, histórias que funcionam dentro do universo adolescente. Por isso romance, morte, descoberta da sexualidade e rebeldia são elementos importantes em qualquer história YA – sci-fi ou não. Ao meu ver YA são Comings* of Age, termo que abrange aquelas histórias sobre a passagem da infância para a fase adulta, em que as personagens passam por experiências que resultam numa mudança física e de perspectiva/personalidade.

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Parece padrão em histórias YA de fantasia ou ficção científica que exista, se não um triângulo amoroso, pelo menos uma história de romance. Particularmente eu adoro quando a história consegue aliar o romance a um enredo bem estruturado e interessante mas, se para incluir o romance, a história precisa apagar a protagonista feminina ou reduzí-la da ação central, eu perco o interesse na hora e muitas vezes me irrito.

Em The 100’s a quantidade de triângulos amorosos centrais que se estruturou e se desestruturou só na primeira temporada é impressionante. Vou tentar analisar um por um, falar dos pontos positivos e negativos de como esses elementos foram trabalhados.

wells fin clarke

Começamos com aquele que me fez ter mais esperanças na série do que em qualquer outra série adolescente nos últimos tempo: Clarke, Wells e Finn. Ao chegar na nave que a traria à Terra, Clarke (Eliza Taylor) é sentada a contragosto ao lado de Wells (Eli Goree), um rapaz negro com pinta de mauricinho, e com quem ela tem uma relação obviamente complicada. Durante a descida para a Terra, Clarke confronta Finn (Thomas McDonell), o tipo delinquente charmoso que, ao soltar-se do cinto de segurança acaba incentivando outros dois garotos a fazerem o mesmo, o que resulta nas duas primeiras baixas dos 100’s quando a nave se choca com o solo.

Logo que esse triângulo apareceu na tela eu pensei que essa seria a série que finalmente daria um protagonismo negro dentro de um triângulo amoroso central numa adaptação de YA. Eu sei, parece complicado, mas tirando Jacob em Crepúsculo, a grande maioria dos caras que ~disputam~ as heroínas tendem a ser brancos.

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À medida que Clarke se aproxima de Finn, um dos personagens que, na minha opinião, tem o desenvolvimento mais complicado da série, ela se afasta de Wells, a quem ela culpa pela morte do pai. Clarke havia confidenciado à Wells o plano de seu pai de expôr o vazamento de oxigênio para a população da Estação Espacial, e Wells teria contado o plano ao seu próprio pai – Chanceler Jaha. Clarke acaba descobrindo que quem denunciou seu pai foi, na realidade, foi sua mãe e que Wells permitiu que ela acreditasse ter sido ele seu algoz para proteger a melhor amiga.

Os dois se reconciliaram durante o terceiro episódio e, ao final dele, Wells é morto pelas mãos de uma menininha que não conseguia tirar a imagem de Jaha de seus pesadelos, e o enxergava na presença do filho. Jaha havia mandado seus pais para o espaço por um crime ínfimo, e a menina órfã ficou traumatizada.

wells

Achei covarde.

Primeiro porque Wells tinha potencial para ser um personagem muito interessante, talvez desafiar o pai no poder e tinha uma personalidade que parecia trazer equilíbrio para a loucura que se sucedia entre Clarke e Bellamy – que, aliás, disse para a menininha que a melhor maneira de lidar com seus monstros internos era matando eles. Bellamy não sabia que a menina ia fazer o que fez, e a morte de Wells, e o suicídio da menininha, mudam o modo com que Bellamy vê as coisas.

A morte de Wells, que tinha poucos amigos em Terra, já que havia sido o pai dele que tinha mandado todos para a Terra, abriu precedente para não só desestruturar Clarke, mas para causar a discórdia no acampamento de maneira geral. Existia um assassino a solta e algo precisava ser feito sobre isso. Clarke, que inicialmente era contra eles seguirem em Terra as leis do Espaço, acusa Murphy, um delinquente e segundo em comando de Bellamy pelo assassinato. Isso resulta num quase enforcamento de Murphy e no subsequente suicídio da assassina. Aqui os papéis de Bellamy e Clarke começaram a se inverter e foi a vez dele assumir uma posição mais pacificadora.

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Finn, a outra ponta do triângulo – e que se manterá como uma das pontas à medida que o ele muda de “participantes” – parece mudar de personalidade assim que a nave bate no chão. Finn foi enviado a detenção por ter gastado um mês de oxigênio durante uma caminhada no espaço. Ele parece ser o tipo de cara aventureiro e, no começo, até há um clima meio Han Solo que logo se perde. Durante grande parte da temporada Finn parece se recusar a aceitar a mudança pela qual Clarke passa, ele se recusa a ver que na Terra só o pacifismo não é suficiente para sobreviver.

Finn foi central num triângulo que nunca chegou a realmente se formar. Logo após a primeira noite juntos de Finn e Clarke, a namorada do rapaz, Raven (personagem muito boa, mas vai ter texto só para as personagens femininas da série), chega na Terra com a ajuda de Abby, mãe de Clarke. Ela vem para tentar descobrir se os 100’s de fato sobreviveram e se eles podem salvar as trezentas pessoas que vão se sacrificar  a bordo da Arca para poupar oxigênio. Raven logo nota que existe algo entre Finn e Clarke e até cria-se uma tensão entre as duas, mas até o momento o que aconteceu foi que elas se tornaram aliadas e passaram por cima dos sentimentos que nutriam por Finn – que acabou sem nenhuma delas. Reviravoltas mais recentes desestruturaram de vez esse possível triângulo amoroso – não vou entrar em detalhes porque esse é o tipo de spoiler que estraga tudo. 😉

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Clarke é central em uma boa quantidade de triângulos amorosos e possíveis romances. Mas o modo como a personagem, e os roteiristas, tratam isso é muito positivo. O romance não atrasa a história e os elementos que são usados para conduzi-lo são sempre elementos importantes do plot. Clarke nunca é reduzida à garota que precisa ser salva, ou deixa de ser a líder que ela é para dar espaço ao seu interesse romântico. Diversas vezes ela coloca de lado seja lá o que for que ela esteja sentindo para continuar tomando as decisões mais difíceis, continuar tentando salvar o bando de adolescentes que caiu na terra com ela.

Ao longo da primeira temporada, à medida que tanto Clarke quanto Bellamy vão mudando os dois vão se aproximam – apesar das diferenças. Aos poucos fica evidente que os dois são as pontas de uma estrutura que existe para tentar manter os 100’s a salvo até que a Arca consiga chegar à Terra. Os arcos dos dois personagens parecem se complementar enquanto eles se desenvolvem, vendo um no outro aquilo que eles precisam ser para realmente proteger seus companheiros. Muita gente já adora o casal, e a segunda temporada trás ainda mais reviravoltas… Mas vamos centrar na primeira temporada. 😉

Twilight’s Last Gleaming

Seja qual for o triângulo amoroso, ou mesmo só o romance tradicional como o entre Octavia e o grounder Lincon, eles nunca ficam no caminho dos personagens ou da história que está sendo contada. Como em Hunger Games a relação entre Katniss, Peeta e Gale não é o tema mais importante, em The 100’s o romance está presente, mas a discussão política e moral toma sempre o centro do enredo. Em alguns casos, aliás, a série parece punir os personagens por se preocuparem com esse tipo de coisa enquanto estão tentando sobreviver num planeta hostil. A única linha narrativa que consiste praticamente apenas de romance é a de Octavia e Lincon e, mesmo assim, mesmo com o clima Romeu e Julieta, ela não parece interferir com a importância dos personagens na história.

Vale ressaltar também que nenhuma das mulheres em The 100’s são diminuídas pela quantidade de pessoas com quem se relacionam. Octavia, até parar em Lincon, teve vários flertes e, em momento nenhum, o roteiro e os personagem a julgaram por isso. Mesmo Bellamy, que é excessivamente protetor, acaba soltando as amarras e deixando Octavia funcionar como bem quiser – não que ela tenha pedido a autorização dele antes disso.

His Sister's Keeper

Eu disse lá em cima: adoro um romance e, quando ele é feita de maneira eficiente, sem parecer forçado ou sem que atrapalhe a protagonista feminina e o seu desenvolvimento, sou super a favor. É um elemento legal que ajuda a manter o público interessado na vida desses personagens e a série consegue alcançar um equilíbrio muito bom neste quesito.

No próximo texto falo sobre as Personagens Femininas da série – que foi o que me motivou a escrever esses textos!

Você pode assistir a primeira temporada de The 100’s no Netflix!

Até lá. 😉

Este texto foi originalmente publicado em 13 de Janeiro de 2015, mas recebeu edição para suprimir alguns spoilers maiores sobre a segunda temporada.

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