Eu acredito que homens podem ser aliados do feminismo. Você deve ter notado que um dos aliados do Colant Sem Decote é um cara (meu boy, aliás). O que eu não acho é que eles devam ser os protagonistas – a luta é feminina, é o nosso empoderamento. Homens podem apoiar, podem lutar ao nosso lado, mas não podem definir o que é o feminismo – e o que é “um feminista”. Machismo afeta homens? Sim, e as consequências disso podem ser catastróficas. Mas a luta do feminismo é a favor das mulheres, não dos homens.

“Mas… Se vocês lutam pela igualdade, não lutar pelos homens oprimidos não é desigualdade?” Por onde começar. Homens não são oprimidos pelo machismo, feminismo é a luta contra misoginia e o machismo que afeta as mulheres. Homens sofrem com o machismo institucionalizado que dá valor unicamente ao macho, onde sentimentos como respeito pelo próximo são execrados. É uma luta justa e muito necessária, e pode ser aliada ao feminismo, mas não é a protagonista. Como feminista eu não sou obrigada a lutar pela liberdade do homem, eu não o oprimo – é o contrário.

Mas e os feministas famosos? Honestamente, eu amo quase todos eles – especialmente o Loki, o Aziz e o Sherlock. – o que eu não amo é a mídia focar todo o seu poder em divulgar esses homens tão honrados e desbravadores que tem a coragem de vestir uma camisa feita por mulheres em uma fábrica de merda na índia (Well, fuck). Acho que a campanha da ONU junto com a fofíssima Emma Watson tem a melhor intenção possível – convocar caras a prestar atenção na merda que eles estão fazendo, mas erra ao coloca-los em lugar de destaque. Parece que pra ser feminista, além de carteirinha, você precisa ser homem e definir o feminismo como bem entender.

Não é por aí.

“Mas Rebeca, você não acha que tá exagerando? A intenção é boa, fazer os homens olharem além dos seus privilégios é muito importante, e é isso que a campanha está fazendo.” Só que não, né? Que caras olhem além dos seus privilégios é incrível, mas que eles assumam o lugar de destaque é problemático porque dá à eles um lugar que deveria ser nosso, que deveria ser feminino. Além de Beyoncé, Lena Dunhan, Taylor Swift e Emma Watson, qual outra mulher você viu ganhar destaque recentemente pelo seu feminismo? Qual delas não sofreu algum tipo de represaria pela sua postura – inclusive por parte de nós, feministas? E porque nós paramos de falar sobre o feminismo delas e começamos a discutir e a aplaudir o feminismo masculino?

Li um texto incrível falando sobre o discurso que o Joss Whedon deu durante um evento feminista no fim de semana. Um resumo honesto do texto seria dizer “De boa intenção o inferno está cheio. Fim.” Durante o seu discurso Joss disse que odeia o “ist”, de feminist, porque esse sufixo estabelece que ninguém nasce pró-inclusivo, que o estado de “acreditar que somos todos iguais” é algo que precisa ser forçado ao longo dos anos. Hum. Bom, como a autora do texto disse, sim, Joss. Existem aqueles que não são homens brancos heterossexuais e cis que passam por uma luta diária por direitos, que sofrem com o estado natural de opressão desde que nascem. Eu sou mulher, branca, hetero e cis e, apesar de sofrer opressão, preciso desconstruir qualquer outro tipo de preconceito que a sociedade me enfiou goela a baixo desde pequena. Eu luto contra o meu preconceito, apesar de afetar os outros, é uma luta íntima – a mulher negra, lésbica e *trans luta contra o preconceito dos outros desde criança, é uma luta diária e muitas vezes física.

A autora também faz um comentário muito assertivo sobre os erros que esses homens feministas cometem. Talvez a maior parte das merdas que os “homens feministas” falam venha do fato de que eles não de fato enfiaram a cabeça em textos e livros feministas escritos por mulheres. Eu acredito que muito do feminismo feminino é construído das nossas vivencias diárias, nós sofremos com o machismo sempre, e por mais que eu considere importante essas leituras, para nós, mulheres, as consequências do machismo institucionalizado é algo que está debaixo da nossa pele. Nós sabemos e sentimos essa opressão, os homens não. Eles podem tentar entender e se solidarizar, mas como fazer isso sem nem pelo menos procurar no Google: “Sou um homem feminista, como proceder?” Tem bastante merda por aí, mas tem uns sites que conseguem acertar.

Acho que a popularização do feminismo na cultura de massa pode favorecer o movimento, principalmente porque vivemos numa sociedade controlada pela Indústria Cultura – mas algo está errado. Nós temos todas essas mulheres que lutaram durante anos pelo movimento feminista, que continuam lutando, que estão emergindo agora, aprendendo e dando a cara a tapa, mas nós damos importância e espaço na mídia para os incríveis homens feministas. Acho importante que homens se dêem conta da merda toda e queiram ajudar de alguma maneira. Mesmo. Mas eles estão fazendo isso? Outra coisa que o texto fala sobre o discurso inclusivo de Whedon, e que também é assertivo, é que se ele é feminista, porque não expor isso nos filmes blockbusters? Buffy é incrível, tem seus problemas, mas eu amo e todo o resto. Sou fã do trabalho de Joss Whedon, adoro Firefly e Angel vai morar pra sempre no meu coração – PARA SEMPRE. Mas hoje ele está por trás da maior franquia de blockbusters que o mundo já viu, ele ajudou a transformar o universo cinematográfico da Marvel nessa mina colossal de fazer dinheiro que ele é hoje. Os olhos dele passaram por todas as páginas de roteiros. Então por que nós ainda temos tão poucas mulheres? Por que ainda há quase que exclusivamente apenas homens brancos nos filmes? Onde está essa inclusão.

É importante mostrar ao mundo que o feminismo está forte, que os homens estão – e precisam continuar – lutando ao nosso lado. Os homens devem usar o privilégio que lhes é dado para abrir espaço para as mulheres e para quebrar esse mesmo privilégio. Machismo também os machuca, mas não os oprime. Mais importante que colocar o holofote sobre os tais “homens feministas”, é mostrar ao mundo o que nós, mulheres, estamos fazendo e fizemos ao longo dos anos para mudar esse cenário opressor. É traçar uma linha que difere o feminismo da luta contra o padrão macho. É mostrar que o feminismo é feito por mulheres e é para mulheres, que homens são bem vindos, mas que eles nunca poderão ser os protagonistas.

 o/

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  • Greg Vendramini

    Muito bom o texto, mas gostaria de apontar uma coisa: Não sei -e acho que nunca vamos saber de fato- porque Whedon passou por esses roteiros todos e não fez as mudanças pertinentes, mas uma das possíveis razões pode estar no pessoal por trás das filmagens.

    Ele sabe -pô, TEM que saber- que o público gostou muito da Viúva Negra, e clamava por um filme solo dela. Acho que se dependesse únicamente dele e do apoio de fãs, rolava. Mas o caso é que não sei a Marvel Studios e o exército de producers e executivos engravatados estava realmente disposto á deixar um filme com a Viúva como protagonista acontecer. A quantidade de palpite que esse povo dá nos filmes é colossal, e basta com que eles falem “Que isso, filme de mulher não vai vender não” para que nem o diretor consiga fazer muita coisa.

    Da mesma forma, existe a opção de que ele não tenha feito certas mudanças porque não deixaram, ou porque ele achava que não iam deixar.

    Não que eu defenda Joss, longe disso. Achei algumas coisas no Age of Ultron detestáveis, principalmente as relativas ao personagem da Scarlett. Mas sei lá, o cara fez Buffy, Angel, e Firefly. Não é o tipo de mancada que ele costuma cometer. Não é o Michael Bay, sabe? Achei muito estranho ele errar a mão assim agora, colocando cena de motorboating entre o Bruce Banner e a Viúva Negra.

    Talvez, como você disse, ele simplesmente errou mesmo.

    Bom, acabei falando demais. Ótimo texto, muito conciso, informativo, e bem redatado.

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